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“Liderar é a arte de eliminar argumentos”

O argumento é um raciocínio de que se tira uma consequência, mas poderá ser apenas uma objecção. Liderar é a arte de eliminar os argumentos de objecção.

Os argumentos podem ser bons ou maus e são derivados de um raciocínio lógico e construtivo. Um argumento pode ter na base um raciocínio lógico e estar errado. Por outro lado, um raciocínio construtivo não é fácil de definir, uma vez que a interpretação de “construtivo” não está apenas em quem o elabora. Na confrontação de argumentos (pode) nascer a melhor solução mas existem muitos argumentos no cotidiano das empresas e organizações que são por si só “argumentos de negação”, sem qualquer base de sustentação. Urge combatê-los e eliminá-los, pois são os principais inimigos do progresso…Preparem-se!

Assembleia de Ferramentas

Conta a fábula que uma vez numa carpintaria, quando esta já se havia remetido ao mudo descanso da labuta e a noite teimava em ganhar espaço ao dia, houve uma estranha assembleia. Foi uma reunião de ferramentas para acertar diferenças e apurar quem deveria ser o Líder.

– Se já conhece a história, passe para o parágrafo seguinte-

O martelo era o tradicional presidente, mas logo os participantes o notificaram que teria de renunciar à sua posição. A causa apresentada? Fazia demasiado barulho; e além do mais, passava o tempo a desferir golpes. O martelo aceitou os argumentos, mas pediu que também fosse expulso o parafuso, acrescentando que ele dava muitas voltas para atingir o objectivo. Perante este argumento, o parafuso concordou, mas em sua defesa argumentou que existia pior. Pediu a expulsão da lixa. Dizia que ela era muito áspera no tratamento com os demais, procurando sempre atritos. A lixa acatou, com a condição de que se a expulsassem, o metro também deveria ser expulso porque media com a prepotência de estar sempre correto, como se fosse o único perfeito naquela carpintaria.

Entretanto, confrontavam-se argumentos mas as ferramentas não se entendiam acerca de quem deveria ser o líder. Já de manhã, a assembleia acabaria por ser interrompida pela entrada do carpinteiro, que logo iniciou o seu trabalho. Ao longo do dia utilizou o martelo, a lixa, o metro e o parafuso. E no final do dia, a rústica madeira converteu-se numa linda, fina e requintada cómoda. Quando à noite a carpintaria fechou, a assembleia retomou a discussão.

Foi então que o serrote tomou a palavra e disse: “Caros colegas, ficou demonstrado que temos defeitos, mas o carpinteiro foi capaz de trabalhar com as nossas qualidades, com os nossos pontos fortes para criar um apreciado móvel. Assim, não pensemos nos nossos pontos fracos e concentremo-nos apenas nos nossos pontos fortes”.

A assembleia entendeu que o martelo era forte, que o parafuso unia e dava força, a lixa era especial para limar e afinar arestas, e o metro era preciso e exacto para garantir a qualidade. Sentiram-se então como uma equipa capaz de produzir móveis de qualidade, inundando-se pela alegria de juntos se completarem.

Ser líder é, em boa verdade, ser “bom carpinteiro”

O carpinteiro é a chave do sucesso. Este consegue liderar e usar as melhores qualidades de cada ferramenta, cada individualidade com todas as suas diferenças. Ocorre o mesmo com os seres humanos. Basta observar e comprovar. A natureza humana faz referência a um conjunto de traços diferentes – incluindo maneiras de pensar, sentir ou agir – que as pessoas possuem, e que são a marca da sua idiossincrasia.

Na crónica “Não trabalhe nunca; por favor esteja sempre ocupado”, apresentei as grandes diferenças entre “não querer fazer nada” ou poder “estar sem fazer nada”. Nas actividades laborais e de liderança existem os dois casos. O primeiro caso é claramente nefasto, ao passo que o segundo (como apresentámos) deve ser procurado.

(https://keepgrowplusgoing.com/2020/11/11/nao-trabalhe-nunca-por-favor-esteja-sempre-ocupado/)

Por que existem nas empresas e organizações pessoas que optam por “não querer fazer nada”? Não existe uma resposta correta a esta questão, que poderá estar ligada a múltiplos fatores, mas é bem provável que a diferença esteja nas lideranças. Um profissional que escolhe “não querer fazer nada” e que encontra todos os argumentos possíveis que o justifiquem, não é uma construção individual, mas sim uma consequência de um disfuncionamento em grupo. Um bom exemplo de ”não querer fazer nada” pode ser os colaboradores que são constantemente opositores e abjeccionistas da mudança. O que tenho verificado é que ninguém inicia uma nova função/emprego com a ideia pré-concebida de não fazer nada, excepções existem, mas não estamos aqui a tratar

Os argumentos mais difíceis

Tenho visto que nestas circunstâncias as pessoas apresentam os seguintes argumentos mais difíceis de eliminar: “sempre foi assim”, “ninguém nos disse que era assim”; “ não tenho recursos para o fazer”; “ não concordo”; “sei, mas não quero fazer”; “ A culpa é dos outros”. Ou seja, todos os argumentos que representam uma cultura disfuncional do complexo sistema que

inclui o conhecimento, as certezas, a arte, a moral, as regras, os costumes e todos os outros hábitos (falta de transparência por exemplo) e capacidades adquiridos pelos colaboradores de uma empresa ou organização.

Mas como se muda a cultura de uma organização pelos argumentos? Principalmente pela aprendizagem. Bom, primeiro temos de encontrar em equipa, em cada um dos colaboradores que existem na organização, tal como as ferramentas da carpintaria, os pontos fortes para enquadrar na tarefa/função certa, de modo a afetarmos os recursos aos objetivos de forma concertada. Não podemos querer que um martelo seja capaz de aparafusar. Podemos tentar, mas não resulta. Desta forma, os fundamentos para eliminar os argumentos nocivos irão, tendencialmente, desaparecer. Pela aprendizagem, experimentação, delegação, confiança, motivação e muita, mas mesmo muita, paciência. O Padre António Vieira elogiava a qualidade peculiar dos peixes de serem capazes de ouvir e de não falar. Contudo, têm o defeito de não poderem converter-se, mas o pregador deve estar sempre preparado para essa dor. Ter sempre presente que, por um lado, de que as pessoas não são uma espécie de máquinas assintomáticas e, por outro lado, de que o sujeito de emposse, o líder, não é sempre clarividente e não acerta sempre.

Deve ser frustrante estar todo o dia a fazer uma tarefa (num produto ou serviço) que não sabemos para o que serve e qual o seu propósito. E se juntarmos a isso uma unha encravada a chatear, não peçam aos colaboradores para cumprir a função e vos dar um bom dia de forma entusiasta.

O melhor exemplo que eu tenho verificado para eliminar argumentos de objecção é explicar aos colaboradores o porquê e a importância da sua função. O que acontece se essa tarefa não for executada, o que perde o serviço ou o produto sem a sua colaboração. Com a aprendizagem surge o entendimento que elimina os argumentos. O líder é, em primeira instância, um formador que cria as condições para não haver argumentos de objecção.

Portanto, se o líder conseguir demostrar que a tarefa é importante (acrescenta valor), então vai ser mais fácil executar sem objecções. Aqui entra a arte. Na verdade não é um momento artístico nem empírico, é mais uma oportunidade de apresentação, através de argumentos construtivos, de uma experiencia passada comprovada ou estudada. Mas, não podem ser quaisquer argumentos (canta banhadas!), mesmo que válidos e testados no passado. Têm de ser “os” argumentos que desconstroem uma cultura enraizada no disfuncionamento da organização. A cada exemplo apresentado ou explicação, este tem de ser comprovado com resultados. Já diz a sabedoria popular, “contra factos não há argumentos”.

“Não basta que as coisas que se dizem sejam grandes, se quem as diz não é grande. Por isso os ditos que alegamos se chamam autoridade, por que o autor é o que lhe dá o crédito e lhe concilia o respeito”. Padre António Vieira

E o que acontece aos inadaptados? Não se preocupem! Vão à procura da carpintaria certa para eles ou surgirá sempre uma crise que os obrigará. Para os que têm qualidades e garra, haverá sempre muitas portas, para os outros, bancos no Restelo de onde nos podem ver partir.

É fácil encontrar defeitos, qualquer um pode fazê-lo. Mas encontrar qualidades… é para os preparados!!!!

Vale do Lima, Capital da oferta do turismo da natureza e aventura, onde Portugal se faz.

Ulisses de Freitas

  keepgrowplusgoing.com

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  1. Tenho tido o prazer de seguir os artigos do Sr. Ulisses Freitas, e deixe que lhe dê os parabéns, sempre muito acertivo no raciocínio, e que tão bem se enquadra no tempo e espaço onde vivemos. Parabéns e felicidades para o PV