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A-D10S, Maradona

A expressão D10S resulta de uma combinação criativa: da frase de Maradona, que ante a Inglaterra em 1986, depois do jogo e do célebre golo com a mão, respondeu que “não fui eu que marquei golo. Foi Deus”; e o facto de 10, o único número que admitia usar, parecer o “io” na palavra “Dios”.
A-D10S significa assim duas coisas: “Adeus”, pela partida de Diego, mas também não-Deus, aquilo que era verdadeiramente Maradona, um anti-herói, imperfeito-perfeito, que mostrou que vencer e errar e perder e honrar é o que de mais humano existe.
No documentário “Diego Maradona”, de Asif Kapadia, Diego Armando Maradona é divido em duas pessoas: “Diego” e “Maradona”. O primeiro é dócil, terno, meigo, familista, amigo. O segundo, “Maradona”, é o combativo, arrogante, indisciplinado, conflituoso, uma estrela mundial. Diego é absorvido lentamente por Maradona, sobretudo ao longo da sua estadia em Nápoles. Depois de ganhar tudo, campeonato do mundo, campeão de Itália e Campeão da UEFA, torna-se D10S. Mas o Mundial de 90, em que a sua Argentina elimina a Itália, e em que estala a divisão entre Napolitanos e Italianos, abre o caminho para que os seus inimigos lhe acabem com o sucesso. Em Itália, Maradona vai da Terra ao Céu, finalizando com a descida ao Inferno. Como o mesmo disse nesse documentário, “Na hora da chegada, fui recebido em Itália por 130 mil pessoas. Na hora da saída, saí sozinho”.
O mais provável é que com o fim do sucesso em Itália tanto “Diego” como “Maradona” já não existissem separados. Eram um só. Nem Diego, nem Maradona. Um resto que sobrou de uma aventura fantástica, que mostrou o que de melhor e de pior se pode fazer no mundo do futebol.
Se me pedirem para definir futebol, digo “Maradona”. Que é o mesmo que dizer talento, arte, inspiração, transpiração, cérebro, organização, companheirismo, garra, emoção, liderança, risco, audácia, excesso, abuso, bravura, desprezo pelas regras, improvisação, imperfeição propositada, perfeccionismo, sentimento, profundidade, intensidade, sofrimento, dor, magia, sonho.
Neste sentido, a morte do lendário Maradona significa, para muitos que viam em Maradona a expressão máxima do futebol, que parte do futebol também morreu. Não se trata de uma morte enquanto desporto, sentido, narrativa, forma ou atividade, mas antes a morte do arquétipo-mor, a figura que melhor representou as várias dimensões do “futebol”. A morte de um ídolo é tao forte quanto a morte de um familiar. Porque o ídolo é aquilo que se quer ser. E o que se quer ser acabou de morrer.
O apelido de D10S não era inocente, nem exagerado. Houve mesmo um futebol antes de Maradona e um futebol depois de Maradona. Porque o Maradona era o exemplo, a liderança, a esperança das equipas, mas ao mesmo tempo significava imperfeições, abusos, excessos que o desporto de alto nível não pode ter. Como o próprio chegou a dizer a Kusturica: “eu fui o melhor e o pior do futebol. O melhor a jogar. O pior como exemplo”.
Sobre a sua morte, chegou a dizer que “se morrer, quero voltar a nascer e quero ser futebolista. E quero voltar a ser o Diego Armando Maradona”. Porventura, mais “Diego” do que “Maradona”. Disse-o precisamente no jogo de despedida, em Buenos Aires, ao despedir-se do futebol: “eu errei, mas a bola nunca se mancha”. Este era “Diego” a falar.

São várias as memórias e as emoções ao ver-ler Maradona. Sim, porque Maradona não se via apenas. Lia-se. Como quem lê um génio da literatura, ou como quem ouve Mozart. Ele fazia tricot com o pé esquerdo. A bola era nele mero holofote.
Mas há um momento em particular que me marca: Itália 90. Jogo Brasil x Argentina. Estávamos, eu e o meu irmão Paulo, a assistir ao jogo. Torcíamos pelo Brasil naquele ano (já nem sei muito bem porquê, porque o normal era sermos do “Maradona”). Corria o minuto 80. Estava tudo empatado. O jogo tinha sido muito calculista. O Brasil temia a Argentina. A Argentina temia o Brasil. Frente a frente, dois grandes campeões do mundo. Eu e o Paulo já pensavamos no prolongamento. E eis que no meio campo, Maradona apanhou a bola. Fintou um, fintou dois, fintou três, tombando toda a defesa do Brasil para a esquerda (no sentido de quem defende). Os adeptos brasileiros gritavam em desespero. Afinal de contas, era o Maradona a chegar-se à frente…
O lado direito do Brasil ficou, nesse exato momento, todo rasgado. Completamente escancarado. E o que fez Maradona? Com o seu toque aveludado, depois de ter fintado três jogadores do Brasil desde o meio canpo até perto da grande área, toca a bola para o lado aberto da defesa. Cannigia, sozinho e no limite do fora do jogo, isola-se com o guarda-redes, dribla para a sua esquerda (a direita escancarada do Brasil) e remata para golo.
Eu e o Paulo olhamos um para o outro, incrédulos. Não pelo golo, mas por aquilo que acabara de acontecer. A frieza e emoção, que só Maradona sabia usar em conjunto, explanaram todo o seu génio. D10S falou. Aquele D10S, o do futebol, o dos excessos, o do anti-sistema, o do país que se vingou em campo das Malvinas, voltou a mostrar, diante do seu maior rival (o eterno Brasil), em frente a todo o mundo, outra vez, mais uma vez, que é no momento certo que o génio deve aparecer. Fosse contra quem fosse, Maradona aparecia sempre nos grandes momentos. Assim era Maradona. Assim era D10S.

Os grandes momentos eram para Maradona os bons e os maus. Depois da sua carreira começou a dar mais importância aos maus. Mourinho afirmou recentemente que “Maradona ligava sempre nas suas derrotas”. E quando Messi ficou sozinho depois de ter perdido o Mundial frente à Alemanha, Maradona foi o primeiro a defendê-lo, dizendo que “Eles (dirigentes) deixaram o Messi só e eu não quero deixá-lo sozinho. Então, eu quero falar a ele para lutar contra todos aqueles que o deixaram sozinho, do primeiro ao último dirigente, desde (Luis) Segura até (Juan Sebastian) Verón, que seja”. Como chegou a dizer, quando foi treinador da Argentina e conseguiu o apuramento, Maradona defendeu os seus jogadores dizendo “que eu sou branco ou preto, nunca cinzento”. Este era “Maradona” a falar.

No futuro, quando os adeptos de futebol de todo o mundo se lembrarem do ano de 2020, vão recordar esse ano como o ano da morte de Maradona. O ano em que, por acaso, também existiu uma pandemia…
Obrigado por todos os ensinamentos, “Diego” e “Maradona”.
Hasta siempre, D10S.
(Texto de Pedro Rodrigues Costa)

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