Skip links

Sobre o pós-Covid

O decretar da pandemia teve a capacidade de criar um momento próprio e excecional, em praticamente todo o mundo. Este momento pode ser entendido pela metáfora inscrita no conceito de “Krisis”, conceito médico fundado por Hipócrates que tinha como objetivo assinalar o momento em que o médico decidiria sobre a sobrevivência, ou não, do paciente à doença. Neste caso, o decretar da pandemia retoma o exato momento da “Krisis”, desta feita um momento em que o corpo médico decide sobre o mundo. Este momento pode ser entendido como o “médico”, ou não, do humano.

Mas se o momento gerado pela pandemia se pauta pela “Krisis”, o conjunto de momentos que revestem o presente, sempre alargado e holístico, é aquilo a que chamo de contingência. Com a excecionalidade do momento, a contingência revestiu-se não apenas de “Krisis”, onde a medicina decide sobre a sobrevivência, mas, sobretudo, de suspensão. A própria cura encontrada é a suspensão por decreto sanitário: de contactos sociais, de hábitos, de estilos de vida, de discursos teleológicos, de projetos, de economias e, em alguns aspetos, de liberdades. No entender de Giorgio Agamben (2020), crença e fé caíram, coletivamente e com uma força porventura nunca vista, na medicina.

A contingência é, portanto, muito mais do que o momento. Acumula o passado, adiciona-lhe os acontecimentos presentes, e comporta as linhas de força oriundas das reações, individuais e sociais: entendimentos, morais, ideias, opiniões, leis, instituições. São essas linhas que revelam consensos, conflitos e possibilidades de adaptação.

Assim, aliada à decisão da medicina sobre o humano, eis que a suspensão de algumas linhas de força amplificou o problema. Além disso, tudo tem sido auxiliado, ampliado e reforçado por uma estratégica comunicacional mundial nunca antes vista. O ecrã, ligado mundialmente por Internet, na televisão, no smartphone, no computador ou até no cinema (revisitando distopias fílmicas e pandemias anunciadas), amigo e companheiro da informação, do lazer, das comunidades e do prazer, encheu-se do acontecimento pandémico, repetiu-o até à exaustão, tornou-se uma espécie de microscópio para seguir o rasto ao vírus. As contabilizações diárias de mortes e infeções ocuparam a maioria das nossas “ecranovisões” (Costa, 2013). Para Bernard Henry-Lévy (2020), essa dinâmica gerou o “primeiro medo mundial”, um medo global, sentido em toda a parte, com arrepios vindos de uma mesma inquietação: será este desconhecido o nosso fim?

Ao suspender o funcionamento habitual de cada sociedade, o decretar da pandemia fez expor as diferentes linhas de força de ordem macro na contingência. Chamo a essas linhas de força de intelectos contingentes, quer dizer, adequações de entendimentos, ideias, opiniões e conhecimentos, normalmente acumulados e dominantes nos diferentes contextos, à coisa vivida. Estes inscrevem-se no corpo social por imitação e contra-imitação, por socialização e por individuação. Com o passar do tempo na pandemia, intelectos contingentes outrora antagónicos acabaram por se evidenciar ainda mais, extremando-se.

Para Noam Chomsky (2020), dois intelectos contingentes opostos clarificaram-se a nível global: uma “internacional progressista” e uma “internacional reacionária”. No seu entender, a primeira é sensível às alterações climáticas e ao discurso de proteção dos recursos naturais. Já a segunda, tal como sugere o nome, é reacionária, foca-se na resposta neoliberal e economicista, tende a ignorar os problemas naturais e das alterações climáticas, e privilegia a economia e o avanço dos seus modelos. Estes dois macro intelectos contingentes digladiam as suas posições, colocando o tempo atual numa tensão perigosa.

Já para Boaventura Sousa Santos (2020), são três os intelectos contingentes que irão sair reforçados no pós-Covid e que se irão enfrentar no futuro, porventura com consequências menos pacíficas e menos democráticas do que aquilo que se desejaria. São esses o negacionismo, o gatopardismo e o transicionismo. O negacionismo descrito pelo sociólogo não “vê na atual crise qualquer ameaça ao capitalismo. Pelo contrário, acha que ele se fortaleceu com a crise atual. Afinal, o número dos bilionários não cessou de aumentar durante a pandemia” (Santos, 2020, §3). As grandes tecnológicas servem como exemplo. Como reconhecimento ao agravar da crise, social, cultural e económica, os negacionistas apelam ao Estado para “reforçar o seu sistema de “lei e ordem”, fortalecer a sua capacidade de reprimir os protestos sociais, ampliando os corpos de polícia, retreinando o exército para atuar contra “inimigos internos”, intensificando o sistema de vigilância digital” (Santos, 2020, §3). A ideia é dar continuidade ao domínio neoliberal, da larga flexibilização (precariedade) laboral da economia e da sociedade, mas reforçando-o para evitar futuras situações análogas. Por seu turno, o intelecto contingente gatopardista é, para Santos (2020), o movimento que pretende “que haja mudanças para que tudo fique na mesma, para que o essencial esteja garantido. Por exemplo, deve ampliar-se o sector público da saúde e reduzir as desigualdades sociais, mas não se pensa em alterar o sistema produtivo ou o sistema financeiro, a exploração dos recursos naturais, a destruição da natureza ou os modelos de consumo” (Santos, 2020, §4). Dentro da ideia de uma democracia bem domesticada, onde o essencial permanece igual, o gatopardismo teme o negacionismo e os seus avanços, pois o aumento de neoliberalismo pode significar o fim da manutenção do tal “tudo na mesma”.

Destaca-se, então, em Santos (2020), o último intelecto contingente, que este apelida de “transicionismo”. A transição implica mudança de fundo no modelo civilizacional que já vem desde o século XVI. Para já circula por entre aqueles que não se encontram em posições de domínio. Está no:

ativismo ecológico dos jovens urbanos, um pouco por todo o mundo; na indignação e na resistência dos camponeses, povos indígenas e afrodescendentes e povos das florestas e das regiões ribeirinhas perante a invasão impune dos seus territórios e o abandono do Estado em tempos de pandemia; na reivindicação da importância das tarefas de cuidado a cargo das mulheres, ora no anonimato das famílias, ora nas lutas dos movimentos populares, ora à frente de governos e das políticas de saúde de vários países; num novo ativismo rebelde de artistas plásticos, poetas, grupos de teatro, rappers, sobretudo nas periferias das grandes cidades, um conjunto vasto a que podemos dar o nome de artivismo (Santos, 2020, §5).

Independentemente das designações, ora dicotómicas (progressistas contra reacionários), ora tricotómicas (negacionistas, gatopardistas e trasicionistas), continuaremos em ajustamentos e acumulações. A força imposta pela “Krisis”, iniciadora de uma contingência que suspendeu o habitual pelo excecional, que ajustou o tempo social pelo tempo “médico”, que instalou o “primeiro medo mundial” e com isso um avolumar de posicionamentos ainda mais extremos, revela a importância dos acontecimentos nas ideias e entendimentos históricos para a criação de caminhos. As movimentações políticas, económicas e sociais, em todos os setores de atividade, anunciam já os referidos binómios ou tricotomias em ação. Veja-se os imediatos negócios bolsistas em torno das vacinas, ou a luta pelo poderio científico ao anunciar ao mundo as eficácias das descobertas, ou as coligações políticas, empresariais e geoestratégias entre continentes e nacionalidades de empresas, ou o otimismo em torno da ideia de “digital como solução para o mundo”. Isto demonstra claramente o que continuará a ser o pós-Covid: como os transicionistas, mesmo tendo encontrado um novo trampolim discursivo para reivindicar um novo mundo, terão que suar nas negociações com negacionistas e gatopardistas, estes que tudo farão para não perder o capital que foram acumulando ao longo dos últimos anos.

Se a pergunta é se o pós-Covid vai trazer mudanças significativas, a minha resposta é simples: descrevi neste texto uma situação de suspensão. Nunca de destruição. Ou seja, o que temos é uma suspensão do habitual e, como tal, o processo seguinte não é o da construção – como aconteceria no caso de uma situação de destruição. O mais provável é a continuação. Como o modelo socioeconómico das gerações que vivem a atual contingência é o que continua da relação produção-consumo, promovendo e reproduzindo intelectos contingentes centrados em estilos de vida consumistas e materialistas, assentes no parecer, no marketing e na publicidade, facilmente se entende que intelectos contingentes negacionistas e gatopardistas levam vantagem sobre qualquer outro que preconize uma transição brusca – que é o caso do modelo do desenvolvimento sustentável, acelerado pela forte necessidade de combate urgente às alterações climáticas.

Como os intelectos contingentes se confrontam, e se confrontam tendo em conta as circunstâncias – neste caso as circunstâncias serão as da crise social, cultural e económica prolongada –, o mais provável é um ajustamento do transicionismo ao gatopardismo, por serem de famílias discursivas mais próximas, do progressismo a algum reacionarismo de esquerda, tendo em vista alguma desprecarização das relações laborais, continuando desse modo um lento processo de mudança. Será isto o que necessitamos verdadeiramente? Veremos…

 

Referências bibliográficas:

Agamben, G. (2020). A medicina como religião. Instituto Humanitas Unisinos. Retirado de http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/598583-a-medicina-como-religiao-artigo-de-giorgio-agamben

Chomsky, N. (2020). Internacionalism or extinction. Progressive international. Retirado de https://progressive.international/wire/2020-09-18-noam-chomsky-internationalism-or-extinction/pt-br

Costa, P. R. (2013). Entre o ver e o olhar: ecos e ressonâncias ecrãnicas. Braga: Universidade do Minho.

Lévy, B. H. (2020). Este vírus que nos enlouquece. Lisboa: Guerra e Paz.

Santos, B. S. (2020). Negacionismo, gatopardismo e transicionismo. Outras Palavras. Retirado de https://outraspalavras.net/crise-civilizatoria/o-negacionismo-o-gatopardismo-e-o-transicionismo.

Escreva um comentário

Nome

Website

Comment