Skip links

2020 pelo olho do rock anglófono

2020: ano bastardo. Pandemia, crise sanitária, crise de gestão, crise de organização, crise humanitária, crise económica. Se fosse um sonho, ficaria na categoria de pesadelo. Pouco sobra de positivo. Batemos no fundo, coletivamente.

Ao contrário daquilo que se tem vindo a apregoar, é errado considerar a existência de profissões de primeira e profissões de segunda. A ideia de “serviços essenciais” é perigosa. Torna o mundo essencialista e moralizador. É o regresso ao “velho mundo pré-moderno”, de acordo com Bauman. Em “A Vida Fragmentada” (2007, p. 14), o sociólogo considerava a condição humana como uma “desconfortável” e “ambivalente” opção de escolha entre um bem e um mal, colocando o sujeito em permanentes “responsabilidades morais” muito antes “sequer de se confrontar com o Outro”. O humano tem a “responsabilidade pelo outro”, sendo que essa “condição primitiva da moral”, anterior ao confronto com o outro, coloca o ser social diante de escolhas, num “existir-para” que implica ter “responsabilidades-por”.

Nesta perspetiva, a pandemia terá convocado, mais uma vez, a vida moral, o confronto ambivalente entre o “essencial” e o “não essencial”, entre o bem e o mal. Entrar na espiral da vida moral é entrar numa “incerteza interminável”.

Depois disto, podemos então compreender melhor Latour: “jamais fomos modernos”. A moralidade, ao opor bem e mal, essencial e não essencial, evidencia, na pandemia, comportamentos perigosos: vigilância sanitarista, acusação mesquinha, perseguição pelos culpados. A “culpa é tua”, dizem os líderes mundiais. A “culpa é tua”, gritam nas redes digitais os que acusam uns de se ajuntarem em grupos, ou aqueles que não gostam de atitudes de vigilância e perseguição. O caos está instalado.

Haja, todavia, alguma esperança. Como escrevia outrora Aristóteles, “no fundo de um buraco ou de um poço, acontece descobrir-se as estrelas”.

Se olharmos para o panorama musical de 2020, acontece descobrir algumas estrelas. As novas produções musicais em 2020 estão a ser de grande qualidade. Os velhos amigos do costume voltaram. E quase todos de uma vez!!!

Fiz por isso uma pequena ronda por algumas produções musicais de 2020, inscritas na cena do rock anglófono. Para alguns músicos, o ano de 2020 está a ser o reflexo do que somos. Para outros, urge um grito de alerta para mudar o futuro. E para outros, continuamos escravos de máquinas, aprendendo muito pouco com o passado.

Vejamos:

Parte I – ACDC (Power Up)

Há quem diga que “o meio é a mensagem”. Para os ACDC, não é bem assim. Entre estes sexagenários, mais do que o meio, “o ritmo é a mensagem”. E parece que ainda ninguém entendeu isso. Quem ainda hoje ouve o som dos autralianos ACDC, percebe como o fluxo da vida é um ritmo constante e crescente até atingir o auge estridente, para depois decair. Enquanto isso, viver significa dar “um tiro no escuro”.

 

Parte II – Bruce Springsteen (Letter to You)

Ao abrir no Youtube uma das novas músicas do novo álbum de Springsteen, intitulada “Song For Orphans (Official Audio)”, deparo-me com o seguinte comentário de um internauta entusiasmado e grato: “In the dark horrors of this 2020, Bruce shines! Thank you brother, father, friend… Boss!” (93Rossoblu).

Sobre o horror que está a ser 2020, estamos conversados. Mas já sobre chamar “brother”, “father” and “friend” ao Boss, tem muito que se lhe diga. A alcunha de Boss vem do seu poder no bairro onde cresceu, o que significa que para os do seu bairro a expressão “brother, father and friend” reflete um passado difícil, mas de superação, lealdade, proteção e gratidão.

Soando a Bob Dylan, há em “song for orphans” uma mundividência cristalina de alguém que com 71 anos já passou para o estatuto de instituição. A mensagem é clara sobre a dureza da vida e a atitude certa para a enfrentar:

“Então, quebre-me agora, grande Mãe, enquanto o velho fiel quebra o dia

Acredita em mim minha querida Linda, a aurora vai brilhar no caminho

A confederação está em meu nome agora, os cães são mantidos à distância

O eixo precisa de um braço mais forte, sente os músculos em ação” (B. S.).

 

A música de Bruce inspira-se, fundamentalmente, na caminhada. Somos de passos, somos de caminho, percorremos trilhos. Mas trata-se quase sempre de uma caminhada feita na cidade, no bairro, onde ele próprio se sente melhor. É da rua que traz todo o seu saber: melódico, rítmico, poético.

No ano de 2020, Boss quer indiciar uma grande falha: parece que não aprendemos nada com as ruas, com a vida dura dos que cresceram numa luta diária exposta a todo o tipo de ameaças. Em uma “carta para ti”, nome do novo álbum, o Boss reenvia a mensagem, encontrando assim um modo de dizer que viemos de lugares e dificuldades superiores à que vivemos hoje…

 

Parte III – The Strokes (Ode to the Mets)

Em Ode to the Mets, os Strokes trazem-nos a nostalgia do som do salão de jogos. Quem viveu esse mundo, algures entre 1980 e finais de 1990, sabe bem como tudo era ingénuo. Ainda não tínhamos avistado a verdadeira aceleração da máquina…

Hoje, ao olhar para trás e a ouvir esta música, questiono se a massificação da máquina não terá começado aí, nesse templo maquinado de sonhos que eram os salões de jogos. Os strokes parecem responder com uma inquietação:

“Já se foram os velhos tempos

Esquecidos, é hora de segurar na grade

O cubo de Rubic não está a resolver os problemas

Continuamos com os velhos amigos, há muito esquecidos

As velhas formas, no fundo…”

 

Será que o cubo de Rubik, símbolo de lógica, organização e destreza, afinal não resolve os problemas? Afinal aqueles que aprenderam a manejá-lo não resolvem as crises? E de que velhos amigos é que se discorre aqui? Os velhos hábitos do poder? As velhas formas de pensar? Com “Ode to the Mets”, a nostalgia é o verdadeiro problema, pois convoca repetidamente as “velhas formas” …

 

Parte IV – Marilyn Manson (We are Chaos)

Inspirado pela pandemia, Marilyn Manson, o “homem caos” como era conhecido na década de 90, decidiu em 2020 mostrar o mundo caótico que temos vindo a criar. O lado devastador e explosivo do humano ecoa em todas as notas musicais de “We Are Chaos”: comprimidos, álcool, miséria, mistério, sangue, engrenagens maquínicas, incêndios, exploração de recursos naturais e todo um alargado conjunto de explorações humanas sobre o Planeta Terra. Numa das passagens do videoclipe, vê-se a “máscara” a cair ao homem dito civilizado e de negócios, que tem construído guerras, filosofias de vida e comportamentos nefastos para toda a espécie humana. De acordo com as suas palavras, “estamos doentes. Não podemos ser curados”.

Para quem via no caos a salvação, não deixa de ser uma poderosa e irónica mensagem. O mundo reflete o desejo humano do caos…

 

Parte V – Pearl Jam (River Cross)

Em meu entender, esta música tem uma longa estória. Para quem se lembra de “Into de Wild”, filme inspirado na história real das viagens de Christopher McCandless através da América do Norte na década de 90, esta música insere-se imediatamente antes da sua trágica morte.

A certa altura do início das cheias, na zona onde se encontrava, e depois de uma aventura que já não fazia sentido continuar, era tempo de Christopher McCandless regressar a casa.

Porém, ao chegar ao rio, percebeu que não poderia passar devido à monção e à respetiva subida de nível das águas. Acabou por ficar retido na zona onde estava acampado, acabando por morrer envenenado ao tentar sobreviver com a escassez de alimento que se poderia encontrar nas plantas. A escolha errada de uma espécie de baga silvestre acabou-lhe com a vida.

No meu entender, “River Cross”, de 2020, surge neste momento. Como Christopher não conseguiu atravessar o rio, sendo isso depois a razão de arriscar as bagas que acabariam por matá-lo, o filme retrata em certo sentido uma cegueira pela experiência e pelo conhecimento inscrito nos seus livros de plantas. A crença desmedida na ciência e nos seus heróis do saber acaba por tornar-se o seu pior inimigo. Resistiu horas. E nessas, as suas últimas, vislumbrou o futuro, que é este que temos hoje. River Cross entra aqui.

A questão lançada pelos Pearl Jam nesta música é esta: vamos, desta vez, arriscar atravessar o rio coletivamente, ainda que haja o risco de naufrágio, ou ficamos reféns de conhecimentos que nos estão a empurrar para o abismo enquanto espécie?

Todo o álbum, de nome Gigaton, apela a uma espécie de grito coletivo pela defesa do planeta. Tudo em modo sonoro…

 

Parte VI – Bush (Ghost in the Machine)

O significado original da palavra grunge é “sujidade”, “imundice”. Ante o limpo, organizado, burocrático, complexo e politicamente correto, a cultura musical oriunda de Seattle respondeu com o simples, descomplexado, sujo, politicamente incorreto.

O Grunge ecoou em vários continentes. A sua força vinha da resposta ao cinismo: cinismo político, cinismo económico, cinismo social. A certa altura, ainda que nunca tal tenha sido dito por estas palavras, a mensagem do Grunge soava a qualquer coisa como: por que querem retirar o sujo do centro quando é na sujidade que o poder se funda? Em várias músicas, eram estas as questões em uníssono de Alice in Chains, Nirvana ou Soundgarden.

Esta postura (art)ivista tinha antecedentes. O ataque à política e às máquinas, na perspetiva Rock, terá porventura começado com Hendrix. Em “Machine Gun”, contraria a sujidade política ao criticar musicalmente a decisão da invasão ao Vietname, ao relembrar o som sujo das máquinas de guerra, tentando dizer que com a sua máquina (a guitarra) o tom não seria o da guerra, mas sim o da paz.

Em 2020, os ingleses Bush retomam o problema da máquina e o grito do Grunge ante o “limpo”. Mas com outro sentido. Falam do fantasma da máquina, aquele que nos torna “escravos” delas. Estamos dentro de máquinas, vivemos nas máquinas e não nos livramos de máquinas…e isso constitui hoje o cerne das grandes questões sociais…

 

O panorama descrito aqui a várias vozes, através de leituras de grandes do rock, lembra-me uma pequena estória que se conta por aí:

Certo dia, perguntaram a Margaret Mead sobre qual seria o primeiro sinal de civilização. Entre os vários artefactos encontrados, os seus alunos acreditavam em provas de barro, como jarros e afins, ou então instrumentos de guerra, como lanças e martelos pré-históricos. Mas a antropóloga terá surpreendido os seus alunos. No seu entender, a prova mais primitiva que diz ter encontrado foi um fémur cicatrizado. No reino animal, um fémur partido, que significa a locomoção limitada, é o mesmo que dizer que a morte vem a caminho. É que os predadores são implacáveis. Ora, se há provas de um fémur cicatrizado, isso significa comunidade, interajuda, partilha de esforços, cuidar de outrem. Sem a ajuda do outro, do próximo e igual, aquele fémur cicatrizado nunca teria chegado até nós. Aliás, nunca teria existido…

Creio que a solidariedade entre iguais continua a ser o farol para o qual devemos olhar. Sobretudo em tempos de crise…

Escreva um comentário

Nome

Website

Comment