Skip links

«Não trabalhe nunca; por favor esteja sempre ocupado.»

Quem passa na rua do Carmo em Lisboa, junto aos armazéns do Chiado, não pode ficar indiferente aos mendigos que lá estão sentados na rua. Pedem para cerveja, vinho, whisky e para a ressaca…. E cobram 278€ por cada foto! Chamam-lhes “Lazy beggars” (Mendigos preguiçosos), mas ao menos sinceros…

Trabalhar não é opção!

Devo admitir que há situações em que dou dinheiro a mendigos, e é exactamente em situações como esta! Não tenho certeza do que me leva a fazer isto, mas talvez a honestidade por alguém dizer abertamente: “Ei, olha! Eu sou um mendigo e não quero ajuda de instituições de caridade ou governamentais. Eu, simplesmente quero disfrutar de uma bebida e aproveitar o meu dia! Podes ajudar-me? O que achas?”

Tenho para mim que a franqueza e a verdade são a fundação mais básica do carácter de uma pessoa. A sinceridade é o último bastião da integridade humana. Todos já ouvimos falar de casos de falsa mendicidade, e na relutância que temos em apoiar em caso de dúvida. Mas neste caso eles estão a ser sinceros… temos simpatia por serem verdadeiros e honestos. Normalmente repudiamos a preguiça, mas estaremos nós neste caso com sentimento de fúria ou de ciúme? O que leva uma pessoa a desprender-se completamente das normas sociais e a enveredar por um caminho de completo relaxamento, sem complexos e cheio de franqueza e verdade?

Não há muito tempo que certos regimes totalitaristas pregavam que o trabalho “purificava a alma”, acabando, ainda assim e em favor do mesmo, por matar milhões. “Arbeit macht frei” é uma frase em alemão que significa “o trabalho liberta”. Era essa a expressão que por norma encimava a entrada dos campos de extermínio nazi.

Muitos de nós temos de trabalhar para garantir um sustento que proporcione a possibilidade de procurar o saber. Para que consequentemente possamos proporcionar a nós e aos nossos a saúde desejada (Pode não ser por esta ordem). Reiteradamente pedimos aos nossos filhos dependentes (adolescentes e adultos) para estudar. Mas só se lhes podermos proporcionar sustento, caso contrário teriam de ir trabalhar como em muitos casos, menos agora que antes. É uma prova inequívoca que o mundo está a melhorar.

Estar sem fazer nada requer muito trabalho prévio.

Já imaginaram que os 2 mendigos de que vos falei podem ter a “profissão” de, pura e simplesmente, Estar sem fazer nada? Tipicamente os reformados têm mais condições para assumir este tipo de profissão. Necessitaríamos de criar uma sociedade que admitisse atribuir esse estatuto a qualquer cidadão, o que em plena época de crise económica a nível mundial me faz esboçar um sorriso. LOL

Há uma grande diferença entre “não querer fazer nada” ou poder “estar sem fazer nada” ou seja “estar reformado”. As motivações e as circunstâncias que enformam uma e outra situação são completamente distintas. Não sei quais são as intenções dos 2 mendigos: “Estar sem fazer nada” ou “não querer fazer nada”, mas se os donativos lhes proporcionam sustento, então estes tem oportunidade de poder estar sem fazer nada para poderem ser criativos.

Estar reformado é para muitos a ultima profissão do curriculum vitae. Manter uma ocupação que proporcione satisfação na sua realização elimina o sentimento de estar à espera do fim. Agora, imagine poder ser reformado à nascença e perceber que quem não quer fazer nada morre mais depressa, impulsiona-nos a procurar fazer algo que nos mantenha ocupados (vivos). Descobrir o que gostaríamos de ser e de fazer para vivermos mais tempo. Portanto, a ideia é constantemente procurarmos a reforma antecipada. A regra seria «Não trabalhe nunca; por favor esteja sempre ocupado.» Agostinho da SILVA.

Ter a intenção de estar sem fazer nada é dar espaço à imaginação e à criação. Claro que para chegar à profissão de reformado antecipado é preciso ter “descontado” antes. Ter criado as condições para poder estar sem fazer nada. Existe outras formas, como ter um tio rico que deixe uma boa herança, a sorte do Euromilhões ou até mesmo um casamento afortunado. Mas a esmagadora maioria precisa ter trabalhado antes para garantir o “sustendo”, para, enfim, ter a liberdade de criar… O “trabalho” para muitos afortunados é uma ocupação, tiram muita satisfação do que fazem. Todos conhecemos casos desses, e não é exclusivo dos artistas.

Agora, em vez de mendigos, podem sempre optar apenas por “não trabalhar” (serem criativos) e serem minimalistas ao mesmo tempo. Reformados antecipados que só têm quatro camisas brancas idênticas, que usam durante os dias de “trabalho”, e dois pólos para usar nos fins-de-semana. Um prato, uma tigela de sopa, uma tigela de arroz, uma mesa, um colchão, uma almofada. Tornam-se minimalistas para se dedicarem às coisas que verdadeiramente gostam. Vivem desprovidos dos objectos “supérfluos” e da forma mais simples possível (máximo 150 objectos). Exemplos: Ter uma habitação adequada (o suficiente para estamos confortáveis) conta como 1 objecto, 1 par de sapatos… vai ver que chegará o momento entre escolher ter carro ou mais uma cueca! Façam a vossa lista!

«(…) é preciso saber ser vadio! … O homem não nasce para trabalhar, nasce para criar, para ser o tal poeta à solta.» Agostinho da Silva

Preguiça no trabalho

Se para muitos dormir no trabalho pode ser sinónimo de preguiça ou doença, outros há que consideram que a sesta pode aumentar a produtividade. Várias experiências pelo mundo têm provado que a sesta traz benefícios. Claro está desde que esta esteja bem enquadrada na sua aplicação, pois existe muitas profissões de quem se espera uma atitude bem desperta e atenta quando estão a trabalhar. Mas nem todos olham para a questão da mesma maneira. Depende da perspectiva, ou seja, se é empregado ou empregador. Mas no que toca a Liderança, prefiro os “Lazy Leader’s (Lideres preguiçosos).

Conheço dois tipos de Líderes (ou chefes). Os incompetentes conscientes e os incompetentes inconscientes. Já trabalhei com os dois tipos, preferi sempre os incompetentes conscientes. São sempre incompetentes, ou seja, não são os melhores a executar tarefas, mas reconhecem e tomam consciência disso. O facto da sua tomada de consciência os levar a promover alterações de atitude que lhes permita melhorar, isto é, ultrapassar as incompetências, faz toda a diferença.

Os líderes têm o alcance exclusivo de toda a organização e muitas decisões só podem ser tomadas pelo líder. Ocorre que ao líder são frequentemente incumbidas tarefas que o impedem de se concentrar nas questões fundamentais, nomeadamente as de natureza estratégica. É pois nos momento dominados pelas tarefas não essenciais que os líderes precisam ser “estrategicamente preguiçosos”. A esta condição chamo a “Arte de se tornar inútil”.

Alguns líderes preenchem os seus dias com actividades intermináveis. No entanto, se um criativo está a gerir tarefas rotineiras, que podem ser delegadas de forma eficaz, então está só a preencher o dia com actividades para se sentir valorizado em vez de permitir que outros possam assumir papel relevante na organização. Os “líderes preguiçosos” procuram sempre ser substituídos, incentivando uma maior autonomia e crescimento da equipa para que o líder possa enfrentar novos desafios. O senso de preguiça estratégica de um líder conduz à transição do colaborador orientado para a tarefa a líder estratégico.

O mercado está cada vez mais exigente e nenhum gestor de empresa ou organização consciente e responsável pretende alimentar desperdícios. Podem até pagar actividades que não contribuam directamente para gerar valor, mas desperdício, NÃO. Daí que as metodologias que aumentam a produtividade e melhoram os processos produtivos, como as técnicas “LEAN”, são cada vez mais exploradas.

Se queres ser um líder “preguiçoso” começa por identificar os teus potenciais sucessores e ensina-lhes todo o que sabes (Aplica o Mentoring). Ao mesmo tempo, identifica o “Valor”. Valor é quanto o cliente está disposto a pagar pelo teu produto ou serviço. O valor é criado por ti, o produtor, mas deve ser definido pelo cliente final. De seguida cria o mapa da cadeia de valor. Identifica as etapas necessárias para criar um bem ou serviço, desde a sua concepção à entrega, distinguindo as actividades que efectivamente criam valor das que podem ser eliminadas. Proceder desse modo permitir-te-á identificar possíveis falhas.

O produto deve fluir continuamente pelos processos sem interrupções, de forma simplificada e optimizada, a fim de equilibrar as etapas de produção. Um fluxo contínuo resulta na diminuição do tempo de produção, na eliminação da inactividade, do tempo de espera e do tempo de imobilização do stock. Implementa um sistema de produção “Pull”, ou seja, apenas é produzido aquilo que é requisitado. Alinhar a produção com a procura real, obter uma cadeia de produção fluída e sem desperdícios, nivelar os processos, melhorar os tempos de entrega do produto acabado e dos serviços, de maneira a que no final da cadeia o cliente se sinta inteiramente satisfeito.

Uma vez estabelecidos os princípios anteriores – o Valor, a Cadeia de Valor, o Fluxo Contínuo e o Sistema Pull – o ciclo fecha-se e é o momento de começar tudo outra vez, numa procura incessante pela perfeição, onde é criado o valor ideal com zero desperdícios. Por esta altura, só as actividades que acrescentam valor é que estão presentes nos processos e todos devem ser capazes de identificar oportunidades de melhoria contínua e aplicar mudanças. Fazer simples e de forma eficaz requer muito trabalho prévio.

Eu, como líder criativo, vejo em primeira mão a necessidade de aproveitar ao máximo a capacidade limitada, através da delegação de tarefas ou eliminando-as por completo. As empresas são aves de rapina. Como líder, tu decides se preferes ser o milhafre observador e consciente, que voa sem esforço e ataca com precisão no momento certo, ou um pássaro oprimido que perde a força e cai no chão à mínima crise?

“ () Vejo os meus defeitos e erros com uma acuidade de milhafre… Que não seja por falta de esforço e de sinceridade que a obra falhe e o homem deixe de ter dignidade (…) Miguel Torga in Com a acuidade do milhafre

Vale do Lima, Capital da oferta do turismo da natureza e aventura, onde Portugal se faz, 1 de novembro de 2020.

Ulisses de Freitas

 keepgrowplusgoing.com

Escreva um comentário

Nome

Website

Comment

  1. Excelente crónica amigo Ulisses. Simplificar é cada vez mais fundamental. Simplificar, facilitar, optimizar. Perdemos tanto tempo, por falta de consciência dos nosso líderes. Bem-haja!!!

  2. Bom artigo.

    Também me recordei da musica do Jorge Palma e a do Eddie Vadder, “Society”…

    Infelizmente o sistema está bem montado para nos fazer ter prioridades que na verdade não o são.

  3. Ulisses, muito bom mesmo, mas tens que simplificar um pouco… eu acho que os mendigos são muito mais criativos e conscientes do que qualquer trabalhador. A opção deles permite parar, observar e absorver tudo em sua volta, o dito trabalhador tem um unico objectivo o trabalho para obter dinheiro. Quem terá uma vida mais rica….

  4. Obrigado pela tua crónica, como as anteriores cheia de “recantos” passível de várias leituras.
    Gostei muito do momento em que descreves o processo produtivo, este quando ideal deve permitir ao líder “preguiçoso” avançar e procurar novos desafios. Eu estabeleço uma analogia entre o que escreveste e uma qualquer aprendizagem, esta passa primeiro por requerer toda atenção do individuo para que após estar apreendida poder passar a níveis mais baixos de atenção, nível automático e depois reflexo deixando a cognição preocupar-se dai em diante com assuntos que permitam sedimentar o aprendido e avançar rumo ao que não se sabe.
    No que diz respeito aos dois indivíduos do inicio, estes remetem-me para Jorge Palma quando canta “Reduz as necessidades se queres passar bem” ou então noutra perspetiva do mesmo autor “podes ter uma luta que é só tua, ou então ir e vir com as marés, se perderes a direção da lua, olha a sombra que tens colada aos pés”. Eu penso que por vezes não temos ou não sabemos ver a sombra que temos colada aos pés.

    Abraço, gostei muito, continua a dar-lhe

  5. Caro Ulisses:
    Para o bem e para o mal, certas “empresas” não se podem “dar ao luxo” de ter Líderes “incompetentes conscientes” já que o custo da existência desse tipo de “gente” é imputado a todos na forma de impostos (mal gastos neste caso)…. não defendo no entanto que o “competente inconsciente” é melhor! A verdade, por muito que custe, é que nem todos nasceram para líderes e a rapaziada da Rua do Carmo prova o meu ponto.

    O Ilustre Agostinho da Silva terá baseado a sua afirmação numa daquelas evidências que sustenta a minha teoria e que ao longo do teu percurso profissional terás tertemunhado: quando queres algo bem feito e dentro do prazo deves solicitá-lo ao indíviduo mais ocupado da tua organização.

    Forte abraço

  6. Muito bom artigo amigo. Continua a escrever dessa maneira e não tarda estás a publicar um livro. Grande abraço.

  7. Estamos tão ocupados (preguiçosos ou pressionados) para querer priorizar tarefas, e, por isso, nós nunca conseguimos resolver algo realmente importante. Estamos ocupados demais para tentar ser produtivos.

  8. Ulisses de Freitas, nós caminhamos para o ócio. Numa sociedade moderna, as pessoas trabalham para o descanso. A revolução industrial já passou no nosso hemisfério, a sociedade já não é escrava do trabalho. Será do consumo mas, não do trabalho. Em ultima análise o homem moderno trabalha, para ganhar dinheiro, para gastar em coisas que não necessita…😉