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A captura do mundo pelo tecnocapitalismo

De acordo com Tristan Harris, ex-chefe de ética da Google, é urgente a criação de um “design ético” em cima do modo como as empresas digitais operam. A captura da atenção e a manipulação e modelação comportamental que tem sido encetada pelos gigantes digitais tendo em vista resultados meramente económicos, está a gerar um descontrolo global sem precedentes e com impactos imprevisíveis. Em seu entender, trata-se de um domínio social e mental sem rival na história da humanidade.

Mas esta dimensão do domínio social e mental já havia sido problematizada há várias décadas. Gabriel Tarde entendia,ainda no final do século XIX, que o que existe na transmissão social são somente duas coisas: crenças e desejos, onde “uns são variedades ou veleidades de ensinamento, outros são variedades ou veleidades de comando” (Tarde, 1978, p.8).

Inspirados por este sociólogo francês, na década de setenta do século passado Gilles Deleuze e Felix Guattari ficaram perto desta fórmula: “existe apenas o desejo e o social, e nada mais” (Deleuze & Guattari, 2004, p.33). Quer dizer, o social é a ligação, a associação e a transmissão, que nunca abdica das crenças para se cumprir; e o desejo é a outra força, que funciona como veleidade ou variedade de comando.

Se o sociólogo e os filósofos entenderam isto em teoria, quem o fez na prática com mestria foram as empresas tecnológicas, através dos seus programas, programadores e algoritmos. Com isto, e recorrendo aos termos de Deleuze e Guattari, os humanos converteram-se em “máquinas desejantes” e as máquinas em “corpos sem órgãos”.

O que estas empresas, programadores e algoritmos fazem, em Silicon Valley, é, fundamentalmente, a captura da atenção dos sujeitos na dimensão “social” e na dimensão do “desejo”. As técnicas implementadas para capturar a atenção dos sujeitos atuam exatamente nestas duas dimensões, oferecendo o que a dimensão social do sujeito necessita (a interação, o envolvimento, o reflexo, a representação, a opinião, a aprovação social) e o que a dimensão dos desejos do sujeito procura (o ego, a líbido, a predação, a sensação de domínio e posse). Hoje, estas empresas detentoras dos “corpos sem órgãos” sabem melhor do que ninguém que um designer de aplicações conectado, essa espécie de programador de opiniões em busca de desejos, pode decidir parte da vida de dois mil milhões de pessoas.

Há quem possa pensar que o Google é apenas um motor de busca, ou que o Facebook é apenas um local onde as pessoas se encontram. Ao fazê-lo não entendem que tanto Google como Facebook,ou o Instagram, ou o TikTok, ou o Snapchat, competem simplesmente por uma coisa: a atenção das pessoas. O negócio destas gigantes da tecnologia é apenas o de manter as pessoas em frente ao ecrã, permitindo-lhes a utilização enquanto lhes mostram produtos e publicidades, com meras intenções comerciais. A ideia de gratuitidade nos usos de plataformas digitais é uma ilusão.

Ao casar, nos ecrãs, social e desejo, estas empresas fizeram do sujeito o próprio produto. A atenção do sujeito, atenção social e atenção do desejo, é agora o produto. E esta atenção está a ser vendida às agências e departamentos de publicidade. De maneira subtil, através de cumulativas e graduais mudanças, tão ligeiras que se tornam quase impercetíveis, estas empresas dominam o comportamento, manipulam a vontade, intercedem na perceção e representação do mundo. Este é agora o maior e o mais poderoso produto: o sujeito.

Ao fazer esta observação estou, pois, a discorrer sobre dois mil milhões de utilizadores em todo o mundo. Mas mesmo que estivéssemos apenas a discorrer sobre 1% destes dois mil milhões, mesmo que apenas 1% alterasse os seus modos de sentir, pensar e agir por intermédio das ações influenciadas pelos gigantes digitais, estaríamos a discorrer sobre uma enorme transformação. É que tal como lembrou Gabriel Tarde, a sociedade é a imitação. Alterando 1% do mundo na direção pretendida, isso é suficiente para se alterar decisivamente o mundo, na medida em que esse 1%, através da imitação, em breve será 10%, e que esses 10%, através das tecnologias globais de informação e comunicação, rapidamente se transformam em 100%.

Todo este conjunto forma aquilo a que se tem vindo a designar de «capitalismo de vigilância». Este lucra com a vigilância que faz às interações sociais e aos desejos que imprimimos no ecrã em rede. Com milhões de dados sobre cada utilizador, trata-se de um mercado quase infalível, com demasiadas certezas. O que é inédito na história humana. Hoje negoceia-se a atenção dos sujeitos, isto é, negoceiam-se pessoas em grande escala.

A vigilância ocorre em todos os aspetos. As previsões melhoram diariamente porque colocamos informações sobre o nosso comportamento no ecrã que vão ser usadas para traçar o nosso perfil psicológico, sociológico, associativo. Os gigantes da tecnologia constroem deste modo modelos cada vez mais precisos que preveem as nossas ações. A empresa com o melhor modelo, ganha. É como se as empresas tivessem um boneco de vodu do outro lado, fazendo de tudo para manter o sujeito em frente ao ecrã: que emoções mais nos estimulam? Que tipo de vídeos mais gostamos? Que tipo de conteúdos temos como preferência? Como é que gostamos mais de interagir?

Para a maioria das empresas tecnológicas, que vendem a “atenção do sujeito”, existem sobretudo três grandes objetivos que se prendem com fatores comerciais: 1.“Engajamento digital do sujeito”, que se cumpre através das dinâmicas de envolvimento, interação, intimidade e influência; 2. Crescimento, através do aumento de tempo permanecido na rede e do aumento de pessoas envolvidas; 3. Publicidade, onde se garante que enquanto tudo acontece, se maximizam lucros com as dinâmicas entre produtos anunciados e vendas alcançadas.

Sempre que duas pessoas se conectam online, eis que o modo de financiar essa permissão de conexão é através de uma terceira pessoa que paga para manipular ambas. Neste contexto, o significado de comunicação, o significado de cultura, é hoje, mais do que nunca, a manipulação. No estado online, que depois passa para o offline em comportamentos, ideias, opiniões e atitudes, a manipulação está no centro do que fazemos. Vejamos um exemplo recorrente nas nossas práticas comuns na rede: nomeamos a pessoa, o sistema envia uma notificação dessa nomeação ao outro, do outro lado é elaborada uma resposta a essa nomeação, passa-se para um sistema de mensagens privado como por exemplo o Messenger, este mostra as reticências para revelar que do outro lado está a haver resposta, e se houver paragem da escrita da resposta já há sistemas a sugerir soluções para a finalizar – tudo processos de captura da atenção, manipulando o sujeito a permanecer em frente ao ecrã. Neste sentido somos cobaias. Não para desenvolver a cura para o cancro ou agora para a Covid-19, mas para perceber como funcionamos, para que a nossa atenção continue refém. É isto que permite gerar os lucros das empresas instaladas neste mercado.

Tudo isto é processado em milissegundos e permanentemente dinamizado por algoritmos. Isto significa que criamos um mundo em que a ligação online se tornou primária e a atenção está ao serviço de associações mentais e comportamentais estimuladas, senão produzidas, por algoritmos.

Tanto o MachineLearning como a Inteligência Artificial estão, agora, virados contra o humano num processo de engenharia reversa, constituindo-se num tipo de ditadura contínua. O objetivo destas é, em sentido neurológico, perceber como libertar constantemente a dopamina no sujeito, levando-o a permanecer no sistema. Trata-se de uma exploração estratégica das vulnerabilidades da psicologia humana.

Isto leva-nos a uma outra reflexão. Pensemos no martelo ou até mesmo no automóvel. Quando estes se inventaram não se alterou a dinâmica psicossociológica no sentido de que o “corpo sem órgãos” (o objeto) se emancipasse continuamente, exigindo, manipulando, seduzindo. Uma ferramenta, como um carro ou um martelo, estava ali à espera do sujeito. Mas neste caso já não se trata de uma ferramenta, porque está já num plano de exigência e de interação permanentes, a exigir coisas às pessoas, a seduzir, a manipular. Passamos a ter não um ambiente tecnológico tendo por base a figura da ferramenta, mas antes a figura de um intelecto, inserido numa contingência coletiva, que quer sobretudo explorar os vícios e os modos de manipulação.

Eis-nos então dentro de dilema social sem precedentes: as plataformas e redes digitais povoadas por algoritmos, não são ferramentas à espera de ser usadas. Elas usam o sujeito, capturam a sua atenção, procuram os seus desejos e com meios próprios. Usam a psicologia e a sociologia, bem como todas as suas associações ao longo de uma vida, contra o próprio sujeito. Ao impor uma interação que leva a emoções, como Likes, corações ou emojis, estes “corpos sem órgãos” funcionam como valores que se transformam em verdades. Verdades adequadas áquilo que o desejo quer que seja verdade, adequadas às expectativas sociais que se possam ter. Tudo numa lógica de curto prazo, maioritariamente vazia e supérflua, insuficiente, colocando o sujeito a pensar no que vai fazer a seguir para obter um “sucesso social” ainda maior. Para penetrar e dominar dois mil milhões de pessoas nas dimensões essenciais do humano (social e desejo), algoritmos simples e algoritmos complexos unificam-se assim, formando uma inteligência avassaladora, um intelecto contingente exterior e manipulador.

Além disso, e na medida em que algoritmos são opiniões em forma de programação e código, tudo isto acontece na esfera da subjetividade. Opiniões e ideias subjetivas de sucesso social e humano partem de cérebros individuais de programadores que visam, em última instância, a maximização de lucros. Os algoritmos são, portanto, otimizados para uma definição de sucesso que é subjetiva, que parte de alguma opinião sobre o que é ou não o sucesso. Uma empresa, quando constrói um algoritmo, tem como princípio a sua própria noção de sucesso, a sua própria definição de verdade. Sob a influência do algoritmo, vivemos presos a uma subjetividade alheia.

Percebemos deste modo que a noção de verdade, aquela que alimenta o social e o desejo de dois mil milhões de utilizadores, é agora pouco mais do que o intelecto dessa empresa adequada ao tempo e aos interesses da sua existência, adequada, portanto, à sua forma de sobreviver. Aos computadores estas empresas digitais cedem um programa para atingir um determinado objetivo, para aprender a atingir um determinado objetivo, e com isso cumprir a definição de sucesso dessa empresa, dessa subjetividade, quase sempre pela perspetiva numérica – em euros, em dólares, em número de cliques e de interações. Diariamente a capturar informações sobre os sujeitos, os algoritmos indexam informações que são extraídas das interações no local e na ordem do algoritmo que foi subjetivamente decidido, ao lado de milhares de outros dados. Melhorando dia após dia, hora após hora, o objetivo para o qual foi subjetivamente desenvolvido cumpre-se: atingir o social e o desejo dos sujeitos, manipulando-lhes a atenção, o comportamento, a decisão.

É este um dos maiores dilemas da contemporaneidade: pela nossa necessidade de ter (ou parecer ter)vida social, fomos capturados. Desejos e necessidades sociais foram capturados e colocados na mão de empresas que querem extrair deles o maior lucro possível. Somos cada vez mais “máquinas desejantes” sob o controlo de “corpos sem órgãos”.

Pedro Rodrigues Costa

Sociólogo e investigador social

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