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“As ruas de Ponte da Barca são a minha casa. Tornei-me um sem abrigo”

Para Pedro, jovem barquense de 37 anos, as noites e manhãs frias que anunciam a chegada do outono têm um sabor muito amargo porque há dois meses e meio, vive nas ruas de Ponte da Barca. 

Ele é um jovem a quem a vida nunca lhe foi fácil “eu confesso que tive problemas com o álcool. No passado fui mesmo muito malandro. Mas acredito que todos temos o direito de termos uma segunda oportunidade”, desabafa quando o abordamos num dos cafés que ele costuma frequentar.

Pedro pertence a uma família com muitas carências, e como ele próprio confessou, teve um passado ligado ao álcool e alguma violência. Morava na casa de um irmão “mas ele pôs-me fora de casa. Ele só me deixa estar em casa enquanto eu tenho dinheiro. Quando o dinheiro acaba já não me quer lá e desta vez, pôs-me fora da porta”, conta.

O jovem tem uma reforma de 208 euros por invalidez “eu tenho essa reforma porque há uns anos tive um acidente. Passaram-me por cima três carros e a partir daí, fiquei com a reforma de invalidez. Mas como você deve saber esse dinheiro não dá para nada”.

Desde que o irmão o pôs fora de casa Pedro deambula pelas ruas da vila “eu como na Santa Casa da Misericórdia e algumas pessoas me ajudam. Para dormir é sempre mais complicado. Quando chega a noite procuro um sítio que seja mais ou menos seguro para dormir. Mas tenho medo. Qualquer barulho que oiça acordo já. Tenho medo que me façam mal. E dormir é quase impossível por causa do frio”, desabafa.

Pedro conta que o mais difícil tem sido encontrar um lugar onde fazer a sua higiene “tomo banho todos os dias no rio. Enquanto era verão era mais fácil, mas agora começa a ser muito complicado. As manhãs já estão muito frias. No outro dia senti-me mal ao entrar na água gelada. Pensei que ia ficar ali esticado. Para lavar a roupa também não é fácil. Até aqui era uma senhora que me lavava a roupa mas esta semana já me disse que não iria conseguir continuar a lavar. É uma situação muito difícil”.

Conta que já foi pedir ajuda á Câmara Municipal e ao Presidente da Junta de Freguesia “eu já fui pedir ajuda e apoio. Porque estar nesta situação é muito difícil. Mas até agora ainda não consegui ter ajuda de ninguém”, relata.

Pedro confessa que durante a noite tem medo “já aconteceu eu acordar e ter as minhas roupas todas espalhadas pelo chão fora. Não sei se foram os cães ou se foi alguém que me tentou roubar. Tenho medo que me façam mal”.

Apesar de estar a viver esta situação difícil reconhece que ainda há pessoas boas e solidárias “tenho encontrado pessoas que me ajudam. Por exemplo há um café aqui na vila, que me dão de comer e de noite, deixam-me estar aqui até eles fecharem o café assim é menos tempo que passo na rua quando chega a noite”.

Desabafa que estar nesta situação o faz sentir-se muito mal “eu sei que o meu passado não é nada bonito. Mas ninguém merece estar nesta situação. Sinto-me mal. Abandonado. Gostaria que alguém me ajudasse pelo menos para ter um sítio onde dormir, sem ser na rua”.

O Pasquim da Vila soube que o caso do Pedro está a ser seguido pelos serviços da Ação Social da Autarquia por tratar-se de um caso complicado e com uma história de reincidência.

“O caso do Pedro é um caso muito complicado. Tem um passado ligado ao álcool e com uma história familiar muito difícil. Ele está a ser seguido pelos serviços. Conhecemos o caso dele e já o tentamos ajudar inúmeras vezes. Mas trata-se de um caso difícil de gerir porque nem sempre a ajuda que oferecemos é aceite por ele. Nós só conseguimos ajudar quando a pessoa quer ser ajudada”, afirma uma fonte ligada à instituição.

Entre tanto, os dias continuam a passar e Pedro espera conseguir ter, pelo menos, um sítio mais quente onde possa descansar até que a vida, ou ele próprio, consiga encontrar uma luz que lhe dê uma nova oportunidade ou quem sabe, uma vida diferente.

“Não consigo acreditar na existência de um paraíso, se cada vez mais a desigualdade social impera entre nós” 

Nino Carneiro

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