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Saga do Pensamento em bloco

Este ano certamente tem trazido enumeras questões que nos fazem saltar do sofá e agarrar ao televisor, ou aos telemóveis,  com a raiva de “como é possível alguém pensar assim”?

Como poderá alguém pensar de forma tão diferente de mim?
Desde a polémica de George Floyd que temos virado a nossa atenção para o racismo, para a segregação racial e para o complexo conceito do que é o racismo sistemático.

Todos temos uma opinião segura e certa do que achamos ser a verdade, se há ou não racismo e o mais importante, se Portugal entra na lista de países onde se padece essa pandemia.

Não vos venho maçar com a minha opinião pessoal de quem lê e vai tentando perceber o problema, até porque hoje venho partilhar uma reflexão que tenho feito desde então mas que
está fora do problema em si: reflito convosco a forma como em todas as questões temos a tendência de pensar num bloco de ideias e assumir que as outras opiniões são erradas e até estupidamente descabidas – aquilo que denomino de pensamento em bloco.

Ora vejamos. Quando pensamos sobre um tema tendemos a procurar informação que sustente aquilo que achamos ser o correto, queremos saber mais do tema, o que é à partida
ótimo, mas a pesquisa que vamos fazendo vai, tendencialmente, sempre ao encontro do que vamos pensando.

Vamos pesquisando sobre o tema x e seguimos a pesquisa com dados e elementos do nosso lado.
Nas nossas redes sociais começamos a seguir páginas que refletem o que pensamos e a cada par uma nova é sugerida e damos por nós rodeados de ideias que encaixam nas nossas – parecemos uma onda gigante de verdade em que todos os que seguimos e tudo o que lemos é igual a nós.

Em cada pesquisa, em cada ida ao feed, o que lemos reflete o que achamos ser o certo que a pouco e pouco, se vai revelando a realidade.

Parece-nos impossível perceber como pode alguém pensar tão distintamente, porque com tanta informação que nos inunda a mil à hora essa pessoa deveria informar-se – mas calma,
ela está informada mas do seu ponto de vista e nada mais!

É irónico como nesta aldeia global ficamos fechados no bairro da nossa opinião em que todos os vizinhos são exatamente iguais. Quando aparece um turista vindo do nada a comentar ou difundir uma opinião contrária não
somos capazes de tentar sequer ouvir, porque a nossa verdade está a ser perturbada e toda a informação que nos tem vindo a dar razão está a ser contrariada por alguém que julgamos
menos que nós ou um fanático que não sabe ouvir, quando a verdade é que ninguém quer ouvir!

Não acho errado mudarmos de opinião sobre um certo assunto, como também não incentivo a termos medo de partilhar as nossas ideias por receio de estarem incompletas ou serem contrariadas. Acredito na abertura ao diálogo e na perceção de que eu não sei o que aquela pessoa leu ou viu e o porquê de me estar a dizer algo diferente.

Se tentasse ler o mesmo que ela poderia entender, mudar de opinião ou só reforçar a minha e tentar explicar o porquê de não concordar, ou não aceitar a sua visão. Mas discutir sem
fundo e fechado no meu bloco só leva a que depois de dizer duas ou três ideias se parta para o insulto barato e se abram ainda mais as frinchas que procuram nos separar, só unindo pelo ódio
(o que ajuda imenso a difundir discursos populistas e de ataque contínuo).

Toda esta visão seguiu de uma conversa com um grupo de amigos em que nem todos estávamos no mesmo bloco de pensamento e percebi, a par e passo na conversa, que já não estava a partilhar uma opinião mas a defender uma ideia, sem abertura a aceitar a outra porque aquela era a minha verdade e bastava-me – também padeço deste mal dos blocos!

Por sugestões de quem me rodeava, abri-me a saber mais do que “o outro lado defende” e apesar de não ter mudado significativamente a minha visão, percebi muito melhor o ponto
contrário e senti-me muito mais capaz de ter empatia por uma ideia que antes era insustentável em mim.

Teria eu saído do bloco?

Talvez. o importante é ter sido capaz de procurar mais informação fora do meu espetro e não só a que me convinha saber para me achar certa! Vou dizendo que ninguém é iluminado e poucos começam uma ideia do vazio, vamos partilhando e difundindo o que alguém foi semeando com as ideias de outros – uma junção que
se vai revelando algo concreto e passível de ser absorvido por quem a queira seguir.

Nada nasce do nada e podemos escolher entre pensar num bloco fechado em que somos os reis da verdade,ou nos abrirmos ao desconhecido e pelo menos saber o porquê e como se pensa além do que sabemos. Aconselho vivamente este último!

Mariana Lopes

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  1. …”nesta aldeia global ficamos fechados no bairro da nossa opinião em que todos os vizinhos são exatamente iguais.” Excelente artigo! Um convite à libertação do pensamento castrado e tendencioso…libertem-se!

  2. Post comment

    Eduardo Machado Cruz says:

    Parabéns, Mariana. Uma profunda e construtiva reflexão.