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Labirinto de Crises

De crise em crise, seguimos. A história é cíclica e hoje lembrei-me de um ensaio que escrevi durante o curso de promoção a Capitão em plena crise do pós 2008 onde apresentei a CPLP (Comunidade de Países de Língua Portuguesa) como uma janela de oportunidade para ajudar a sair melhor dessa crise (nada mudou!).

 «O nosso surgimento como Estado foi do tipo traumático e desse traumatismo nunca na verdade nos levantámos (…)». Eduardo Lourenço (2005), Filósofo

Perante mais uma crise anunciada, surgem os optimistas, tal como eu, a pensar: Será desta vez?

Nas condições actuais não há nenhum modelo de orientação a que possamos recorrer para superar uma crise, apenas há processos de desagregação que seguem trajectórias semelhantes porque decorrem de desequilíbrios idênticos.

Face ao mundo actual de fracturas e dissonâncias, e rejeitando uma pretensão profética ou um qualquer temperamento apocalíptico, vale a pena reflectir. Ter apenas o propósito de sugerir oportunidades que encarem os hipotéticos cenários sobre o futuro do mundo e que podem condicionar a posição de Portugal. O pior numa crise é admitir os cenários mais sérios de ruptura. Obviamente tal abordagem impede a análise dos cenários de evolução considerados mais pessimistas o que, por sua vez, limita a capacidade para preparar antecipadamente as respostas necessárias.

Tenho a certeza de que o mundo tem estado desde há algum tempo a encolher e a tornar-se mais próximo, e que o processo acelerou drasticamente nos últimos anos. Hoje em dia, mais de metade do mundo participa neste processo, directa ou indirectamente, e sente os seus efeitos. Devemos parar para repensar as estratégias nacionais e rever as nossas prioridades para potenciarmos as nossas qualidades enquanto povo que têm a sua cultura peculiar e identitária, Estes tempos são muito perigosos e exigem uma reflexão muito atenta, atitudes muito sérias e escolhas responsáveis. Exigem lideranças sérias.

Vivemos num labirinto de crises, do qual nunca saímos e é razoável admitir que em cada crise que superamos possamos ter o deslumbre de poder sair dela de forma reforçada para evitar crises semelhantes. Portugal não ficou, nem ficará, imune às mudanças mundiais, sejam elas de que ordem for, nomeadamente políticas, económicas, ambientais, militares, … e claro, saúde pública.

De facto, o globalismo económico destacou a agressão económica como instrumento estratégico importante e perigoso. A UE está numa situação de vulnerabilidade aguda, Portugal tem desde algum tempo concentrado as suas atenções estratégicas no Eixo EuroAtlântico e, como todos sabemos, quando estas alianças passam por crises a nossa dependência dessas escolhas causa impactos colaterais nas nossas vidas. Pois um país que não dispõe de recursos naturais para vender ao exterior, que já não é competitivo na produção de produtos de baixo valor acrescentado, que tem muita competência para conceber produtos de alto valor acrescentado, mas investe pouco e que não aposta fortemente e de forma estruturante em áreas como o turismo, o mar, a agricultura e a silvicultura onde pode ser diferenciador (área estruturante para o combate aos fogos florestais), está muito dependente das flutuações externas.

NOTA: Vem aí mais um plano da EU para a recuperação económica. Portugal vai receber mais fundos do que alguma vez recebeu, mesmo no período pós-adesão. Mas atenção à necessária validação dos planos nacionais e à redução do orçamento para programas geridos pelo parlamento Europeu.

Win-Win Situation … Estratégia vantajosa para todos os que nela estão envolvidos.

Portanto, a solução está na diversidade da nossa economia e na mutualização entre os vários sectores económicos. Nenhum país ou região vai sobreviver se depender exclusivamente de um sector de actividade. Mas também nenhum país ou região vai poder evoluir isoladamente. Proponho que troquemos todas as nossas dependências externas e internas por simbioses generalizadas. Relações Win-Win, onde TODOS ganham de forma equitativa, onde tudo está ligado a todos. Em suma, ganha a Humanidade.

O segredo não é mudar 100% das coisas, é tentar mudar 1% em todas as coisas, todos os dias. Tal como nas empresas, as organizações não podem esperar que a mudança chegue de forma acabada via hierarquia superior. As mudanças começam nas bases das estruturas com “pequenas” ideias que funcionam e que depois são exploradas em grande escala.

Mudar para acabar com os “Muda” (palavra japonesa “Muda”, significa  “futilidade; inutilidade; desperdício”) significa mudar para acabar com as dependências da nossa economia.

Procurar, denunciar e renunciar aos desperdícios é deixar visível o que acrescenta valor (o que cria riqueza) entre os vários sectores das nossa sociedade.

Quando a energia de uma tradição, de uma cultura e identidade é liderada e optimizada nas bases de uma organização, é uma força imparável de mudança em todas as direcções. Existe um labirinto de crises que surgirão de todas as formas no futuro, mas estaremos melhor preparados enquanto sociedade se agirmos em simbiose e com (muita) criatividade.

 Termino com um parágrafo do filosofo Eduardo Lourenço em Labirinto da Saudade (2005: 78), onde este sugere o romper com a continuidade e fomentar a criatividade como sendo a invenção do mundo a partir do nada.

Costuma dizer-se que Portugal é um país tradicionalista. Nada mais falso. A continuidade opera-se ou salvaguarda-se pela inércia ou instinto de conservação social, entre nós como em toda a parte, mas a tradição não é essa continuidade, é a assumpção inovadora do adquirido, o diálogo ou combate no interior dos seus muros, sobretudo uma filiação interior criadora, fenómeno entre todos raro e insólito na cultura portuguesa. 

Ulisses Freitas

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  1. Artigo com vários pontos muito interessantes; ainda assim fiquei com ânsia de ter lido mais um pouco sobre os mesmos. Parabéns uma vez mais.

  2. Boa reflexão, a ideia de otimizar a nossa relação com a CPLP é claramente a hipótese de nos posicionarmos de forma mais relevante no mundo, essa parece ser a forma do nosso País tentar prevenir alguns dos efeitos das sucessivas crises mundiais.
    “O que faz falta” é no meu entender a criação de uma espécie de desígnio nacional que passe pelo principio, nos infantários, na escola, fazendo as gerações futuras entender que Portugal vale a pena e é na nossa especificidade que devemos e podemos apostar. Faz também falta a cultura do cumprir e penso que isso é transversal na sociedade Portuguesa, só quando coletivamente quisermos vencer poderemos melhor expressar a nossa liberdade individual. Abraço

  3. Boa reflexão, julgo que a ideia exposta inicialmente, referente a uma abordagem diferente na relação com os Países da CPLP, pode ser uma forma de prevenir alguns efeitos de futuras crises. Ainda padecemos de algum complexo de menoridade, em relação a tudo o que é de fora e penso que a mudança passa pela procura dessa relação com a nossa história e trazê-la para a frente, sem complexos como se de um desígnio nacional se tratasse. A estratégia tem de passar por começar pelo princípio, na escola, tornando consistente essa vontade de fazer coletiva assente em máxima liberdade individual.

  4. Portugal tem efectivamente um potencial enorme que não é aproveitado de norte a sul. Enquanto as organizações sejam elas estatais ou privadas não entenderem que devem cohabitar funcionando como parte de uma rede de produtos e serviços que satisfaz um todo, andaremos sempre “labirinto de crises”. Bom artigo caro Ulisses! Um abraço

  5. Apesar de achar que realmente Portugal tem um potencial muito grande no que diz respeito ao turismo, penso que esse também tem sido o grande erro. Este país ficou completamente dependente dos turistas. E as autarquias estão a cometer o mesmo erro..
    Parabéns por mais um artigo de excelência.