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O último dia do verão será de várias despedidas

A economia é como um castelo de cartas. Um setor de atividade é uma de muitas cartas desse castelo. Em Portugal, a “carta” HORECA (Hotéis, Restaurantes e Cafés) é uma das mais centrais. Se o canal HORECA cair em força tal como apontam as previsões da Associação Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal – AHRESP (em que cerca de 40% das empresas de restauração e 18% da hotelaria estarão a caminho da insolvência devido à pandemia), as restantes “cartas do castelo” cairão por todo o país. O efeito dominó será devastador. O ano de 2020 poderá vir a ser lembrado como um dos mais dramáticos dos últimos 100 anos, em Portugal e no resto do mundo.

Podemos, pois, começar a antecipar setembro de 2020: o número de falências por dia entrará em ritmo acelerado. Depois de uma das piores metades de ano de sempre e ao som da nostalgia típica provocada pelo fim do verão e prenúncio do outono, a crise iniciada pela pandemia tratará de matar as empresas que já estavam em situação difícil, de atirar dezenas de milhares de trabalhadores para o desemprego, de reduzir a um mínimo o número de trabalhadores por empresa e até de fechar outras que pareciam seguras mas que sofreram o efeito dominó. Além disso, com o regresso à escola as incertezas aumentarão em dobro em pais e alunos. O medo regressará. A dúvida instalar-se-á novamente: voltaremos a confinar?

Para muitos dos empresários que me leem neste momento, este cenário nem é sequer novidade. Se as leis e as restrições impostas pela estratégia de combate ao Covid19 implicaram, no canal HORECA (e não só), uma redução para cerca de metade da lotação e dos serviços, o efeito é óbvio: haverá uma redução para metade das receitas e, por analogia, para metade das despesas. No mínimo. Obviamente que mencionar o canal HORECA é mencionar todo o setor terciário (serviços gerais, limpezas, oficinas, gabinetes em geral) e, consequentemente, o setor da construção/habitação. As classes intermédias verificar-se-ão enfraquecidas. As classes baixas totalmente estranguladas. Mergulharemos no cenário habitual das grandes crises económicas. Com uma agravante: o fantasma da pandemia continuará a pairar.

Ainda em modo de previsão, mais uma vez uma crise colocará Portugal, a par das regiões e das autarquias, a repensar o futuro. Porventura regressará a “eterna” conversa do “regresso ao mar” ou então a velha música (e não menos pertinente) da importância da agricultura para o país. Comentadores e especialistas concluirão, em longas jornadas televisivas, que o problema está precisamente na insistente falta de plano estratégico nacional. O desmantelamento da atividade produtiva, tanto no setor primário como no secundário, e uma excessiva aposta na terceirização da economia portuguesa, terá colocado invariavelmente Portugal sob dois gumes: o da sazonalidade e o da dependência externa. Da sazonalidade, porque por mais que se diga o contrário Portugal será sempre um destino turístico de época (não é nem será nunca um destino de férias ao longo do ano); da dependência externa, porque ao colocar a economia ao serviço do turismo num país refém da sazonalidade fica à mercê de todo o tipo de constrangimentos associados a externalidades e condicionamentos alheios. Será mencionado, ainda que sem qualquer consequência prática, que para além de precária, a estratégia de Portugal para o futuro é perigosamente dependente. A juntar a isso, continuarão a ser ignoradas grande parte das recomendações para viver as alterações climáticas.

Esta pequena previsão que aqui adianto é também óbvia. Tem sido este o fado português: analisar, mas não agir em conformidade. E Bruxelas está extremamente pessimista: prevê uma quebra de 9,8% para a economia portuguesa em 2020, ao contrário do governo que prevê perda “apenas” de 6,9%. Bruxelas aponta uma quebra histórica de 14% na economia portuguesa no segundo trimestre em relação aos três meses anteriores. Razões: hibernação da economia devido ao confinamento e queda a pique do turismo (de quase 100% em abril), precisamente aquele setor em que Portugal tem vindo desmesuradamente a promover. Em termos acumulados e em cadeia, e apenas no primeiro semestre, a economia portuguesa terá contraído cerca de 18%. Serão esses tais 18% que irão faltar no final do ano para que muitas empresas se aguentem.

Relativamente ao desemprego, as projeções são as piores: de acordo com o FMI, passaremos de 6,5% em 2019 para cerca de 14% em 2020. A destruição de empresas e de emprego condicionará fortemente os anos de 2021 e 2022.

Ao lado de Portugal estarão Itália (quebra de 11,2%), Espanha (quebra de 10,9%) e França (quebra de 10,6%). Como Portugal é altamente dependente, sobretudo de Espanha e França, o cenário não augura nada de positivo. Invertendo o slogan da pandemia, será caso para dizer que “vai ficar tudo pior”. O que há a fazer? Criar planos de contingência para que a crise não seja nem tão longa nem tão penosa. A grande questão é: estarão os nossos governantes, nacionais e locais, à altura do que aí vem ou estaremos diante de mais comportamentos políticos erráticos como aqueles que assistimos durante a gestão da pandemia? Prevendo-se que a ajuda europeia chegue apenas em 2021, terá o governo arte e um programa suficientemente robusto capaz de evitar que as “cartas do castelo” entrem em colapso?

 

Pedro Rodrigues Costa

sociólogo e investigador social

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