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O Líder também é pessoa!

Sabes o que é o “Checklist “na aviação?

Trata-se de uma lista constituída por um conjunto de procedimentos, itens ou tarefas que devem ser executadas ou seguidas durante uma operação, de forma a garantir a segurança operacional de um voo e a prevenção de danos em equipamentos. O “Checklist” exige a verificação: antes, durante e após o voo. Em caso de emergência o “Checklist” assume uma preponderância fulcral e extrema. De entre todas a acções e tarefas a aplicar há uma que é transversal a todos, está sempre presente e destaca-se como a mais importante: “SA – Situational Awareness” – Onde estou, para onde vou e em que condições. O Homem, a máquina e a sua circunstância…

Liderar exige clareza, sangue frio e momentos de decisão. Como tal, ter uma perceção real e clara de todo o que nos rodeia, do ecossistema, das interdependências da tua organização é fundamental para que nos momentos decisores possas tomar a melhor opção. Tal como um comandante de bordo, tens de seguir os procedimentos e por vezes, em momentos difíceis, podem levar-te pensar estar sozinho.

Já todos nós alguma vez ouvimos falar ou lemos sobre a temática da liderança e a sua relação com a solidão, e tudo o que envolve a influência do poder no distanciamento dos que nos rodeiam enquanto líderes. Importa dizer que o líder faz parte de um conjunto, com as suas características, forças e fraquezas. Vamos desenvolver…

Expressão utilizada na aviação para manter um olhar atento a tudo o que rodeia a aeronave. Para evitar colisões, o piloto deve fazer uma verificação eficaz de todo o espaço envolvente da aeronave. Desde que a aeronave se move até parar no final do voo.

Existem vários tipos de lideranças

Band of Brothers (2001), em Portugal, Irmãos de Armas é uma mini-série de televisão que conta a história da Easy Company, integrante da 101ª Divisão Aerotransportada do Exército dos Estados Unidos, na Segunda Guerra Mundial.

A narrativa discorre sobre os actos desta companhia durante a 2ª Grande Guerra, podemos todos assistir, observar e analisar lições sobre conceitos de liderança apresentados principalmente pelo Major Winters em comparação com o egocêntrico Capitão Sobel.

Sobel: Este personagem dá corpo a um líder (Chefe) voltado unicamente para a tarefa, não se importando de todo com os indivíduos que constituem a companhia sob o seu comando, ou seja, não se interessa pelos problemas do indivíduo; Não premeia; Não reconhece nem usa as aptidões individuais; Não dá estatuto. Não é um líder motivador, não existe comunicação entre ele e a companhia, não designa substituto (ele é insubstituível). É um líder Autocrático. Dá instruções concretas; Determina sozinho os procedimentos e as técnicas a adoptar; Toma decisões sozinho; Dá ordens sem explicar o porquê das suas decisões.

À luz do conceito de Inteligência Emocional, Sobel é um líder coercivo, pois determina objectivos difíceis e até estimulantes se tivesse sido capaz de motivar os seus subordinados. Sendo por vezes um líder dirigista, dando instruções claras o que em situação de crise e de emergência é o indicado, no entanto precisava de ter ganho anteriormente a simpatia e aceitação da sua companhia, isto é, se tivesse criado ressonância com os seus homens. Relativamente às ferramentas de Coaching, o Sobel não sabe que estas existem!

A personagem do Winters é um líder conselheiro, relacional e democrático, gerador de ressonância. Em situação de crise torna-se temporariamente um líder dirigista mas, ao contrário de Sobel, bem-sucedido uma vez que os seus homens estavam afectos à tarefa. Demonstra mais do que uma vez que se preocupa com os seus homens e que está ali para servir e não para ser servido. Está presente, principalmente nos momentos menos bons e mais críticos. Dá o exemplo, é incentivador e justo, premiando sempre que lhe é possível e não penalizando quem não merece ser penalizado. Delega funções. Ao distribuir as tarefas explica o porquê das suas decisões. Não coloca os seus homens numa posição que os diminua, tratando-os de forma respeitosa e humilde.

No âmbito do Coaching, o Winters é criador de empatia (Rapport), pratica uma escuta activa, é um observador atento e promove uma atitude positiva. Fornecedor de feedback. Fomenta a comunicação dentro do grupo e demonstra uma constante preocupação com os seus homens independentemente do posto, origens e crenças.

Ao longo da série, podemos assistir a muitos momentos de solidão em ambas as personagens quando confrontados com decisões difíceis e de situação extrema. O Winters, um líder preparado, tem situações que ele pensa estar isolado e desapoiado. O líder é muito mais do que detentor de decisões estratégias. Ele também é uma pessoa, e como líder é nele que tende ser um influente ponto de concentração de estabilidade e experiencia. É quem equilibra, responsável pelo bom e o mau de tudo o que envolve e acontece numa organização. Enquanto pessoa tal característica pode afastá-lo do grupo que comanda ou trazer um excesso de autoridade, o que visivelmente é um perigo. Portanto, estar cercado por colaboradores, consultores e clientes não determina que o líder não se sinta só, isolado.

Winters demonstra um vínculo afectivo à tarefa. Mediante as situações gere de forma assertiva as diferentes combinações possíveis dos 4 domínios da Inteligência Emocional (auto consciência, auto gestão, consciência social, gestão de relações), está atendo a tudo o que o rodeia e adapta-se às novas circunstâncias. Um líder que mantém a “SA” sempre activa.

COVID-19 – Declaração de Emergência

Tal como os pilotos das aeronaves, os líderes devem aplicar a todo o momento os seus “Checklist” (procedimentos, planos) para as contingências que surgem nas actividades das organizações. Ter evidências de planos de contingência actualizados é um dos mais importantes critérios na obtenção e renovação dos sistemas normativos da Qualidade. Nenhum plano estava preparado para esta pandemia (COVID-19). Certo? Tal como o terramoto de Lisboa de 1755 que abalou o pensamento universal, o que vivemos actualmente também pode ser um momento de viragem no pensamento filosófico mundial.

Vivemos um tempo de muitas incertezas, a pandemia vai alterar a maneira como vivemos e trabalhamos neste mundo (trabalhar é viver?). Talvez esta situação seja o último capítulo da globalização (outro tema!). Estamos em estado de emergência declarado e o que proponho a todos líderes neste momento é que apliquem os seus “Checklist” e que acima de tudo mantenham a “SA”.

Aplicar os “Checklist” de forma mecanizada protege o Líder, ele está a fazer cumprir o previamente determinado, o social e economicamente aceitável. Ações de mitigação ou contingência que já foram testadas e validadas tendem a ser aceites, mesmo não sendo populares. É nesses momentos que os líderes tendencialmente isolam-se para tomar as decisões mais difíceis como por exemplo ter de dispensar colaboradores. Ao mecanizar a execução de forma isolada, está a separar a pessoa do líder. Resguarda-se por não querer confrontar ou por pensar estar sozinho. “Tenho de fazer o que é preciso.”

Hoje, os líderes ao aplicarem o “SA” de forma regular sem se afastarem dos seus liderados mantêm uma observação activa de todo o que os rodeia, estão a acompanhar esta mudança de uma forma mais rápida e ágil. Manter vários momentos de “SA” vai proporcionar maior consciência da alteração global e apurar as competências para decisões assertivas. Vai aproximar o líder da “pessoa”.

Perante a não solução aparente – atua!

Cena do filme: Dunkirk de Christopher Nolan (2017)

https://www.youtube.com/watch?v=mTzvWROn4Rc

A história passa-se na Segunda Guerra Mundial, durante a Operação Dínamo, uma operação militar realizada pelo Reino Unido cujo objectivo foi resgatar cerca de quatrocentos mil soldados aliados que estavam cercados por tropas Nazis nas praias da cidade de DunquerqueNa cena podemos ver que perante a iminência de um ataque Alemão, onde nada parece ser possível fazer para o evitar, observamos diferentes reacções e comportamentos antagónicos de pessoas com diferentes responsabilidades na anunciada fatalidade. Mesmo que inesperadamente todos acabam por ser salvos por alguém que estava ali a passar…

Não podemos esperar, nem aceitar a fatalidade que soluções únicas sejam a salvação das nossas organizações, estados e famílias nesta circunstância (Pandemia COVID-19). Uns têm a inerência e a responsabilidade de agir, outros não. Cumprir os procedimentos, adaptá-los, torna-los dinâmicos e privilegiar uma comunicação aberta em constantes “SA”, próximos dos colaboradores vai permitir antecipar problemas e agir diferente para um mundo que seguirá certamente diferente.

 “Ter planos é inútil, mas planear é essencial“ – Dwight D. Eisenhower

Ulisses de Freitas

Maio, 2020

Revista Keep Grow+ going  

 

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  1. Ensaio interessante sobre como deveriam ser as nossas chefias em tempos de crise. “SA” por cá não existe, basta assistir às conferências de imprensa da DGS com a ministra para perceber que estamos completamente à deriva…