Skip links

Idosa transportada em maca pelo caminho de terra por não ter acesso até casa

“Temos de andar com a minha sogra como quem leva um molho de erva às costas. Isto não se admite”, garante nora da idosa de 92 anos.

 

A denúncia feita através da rede social Facebook chama a atenção pelas fotografias chocantes onde se vê uma idosa, a ser transportada deitada numa maca, custodiada por duas bombeiras, e a percorrerem um caminho sinuoso, debaixo do forte sol que se fazia sentir. A nossa entrevistada chama-se Maria de Lurdes Vieira Gonçalves, nora da idosa de 92 anos, e mãe do jovem que fez a denúncia na conhecida rede social e que já conta com centenas de comentários e mais de 700 partilhas. Quisemos  conhecer então, conhecer a história da Dona Rosa Maria Martins e assim, entender os contornos desta história. De igual forma, tivemos o testemunho oficial do Presidente da Junta de Oleiros, Nuno Pereira.

 

Maria de Lurdes Vieira Gonçalves conta que a sua sogra, depois de ter sofrido uma queda na sua residência, teve de receber assistência médica no Hospital e “depois de ter estado lá uns dias, regressou à casinha dela e é esta a situação. Uma vergonha! Tem de ir deitada na maca, pelo caminho, porque a casa dela não tem acesso. Isto não se admite nos tempos de hoje. Uma senhora com aquela idade. Não se admite. Isto nem a um animal se faz. É a minha sogra. Tem 92 anos. Ainda ontem chegou ao hospital e foi numa maca pelo caminho fora e ia eu ao lado a segurar a maca. Eu e duas bombeiras. Não estamos nos tempos disto, acho eu. Eu ajudava a segurar a maca para ela não tombar”, explica bastante perturbada.

                                                                         

 

 

fotografias e vídeo cedidas pela família 

 

Maria de Lurdes explica que a Dona Rosa “não tem qualquer tipo de doença. Ela caiu há dias e partiu a anca. Mas de todas as vezes que é necessário transportá-la, é assim. Até lá não chega nem sequer um carro. Há uns tempos, uma ‘enchurrada’ tapou a entrada do caminho que vai até à casa da minha sogra, porque o muro de um vizinho caiu…eles fizeram o muro do vizinho e arranjaram uma parte da estrada, mas daí para frente (até a casa da minha sogra), nunca mais avançaram”, explica.

 

Também afirma que “há muito tempo que eu falo com os presidentes da Câmara. Porque isto não se admite. Uma senhora com esta idade não ter um acesso até casa, pelo menos para uma ambulância. Os antigos chegaram a dizer que não iam investir dinheiro neste caminho só por causa duma pessoa. Uma vergonha! Esta nova Câmara Municipal também sabe. O senhor Augusto Marinho disse-me que iam fazer tudo para me ajudar e o senhor Nuno (Pereira), presidente da Junta, também me disse que ia alargar o caminho para a ambulância chegar até à porta”, garante.

 

Explica que mais obras como aquela que o Caminho de Airó precisa para dar algum conforto à sua sogra “já foram feitas noutros lados mas aqui nunca foi feito nada. À porta da minha sogra está tudo igual há muitos anos. Andou lá um trator a meter uma terra tipo barro, porque os valados estão todos a caírem…uma tristeza”.

 

Maria de Lurdes explica que além desta situação, havia outra que também demorou alguns meses até ter uma resolução positiva “antes da consoada aluiu a mina de um vizinho. E ficou um buraco enorme aberto. Muito perigoso para a minha sogra, ou para outro qualquer. Porque a mina não é da minha sogra, mas está no que é dela, e quando isso aconteceu veio aqui a GNR, Segurança Social, presidente de junta, várias pessoas, mas ninguém se preocupou em fechar o buraco. Só queriam tirar a minha sogra de casa para evitar o perigo de ela cair. Foi preciso eu ligar para a GNR dos Arcos de Valdevez para passarem aos colegas da Proteção Civil. Eu pedi-lhes muita ajuda, uma vez que ninguém nos ajudava. E graças a eles, depois de tantos meses, o buraco foi fechado. Fecharam-no neste sábado. Não acho justo. Aquilo que eu acho justo é ajudarem as pessoas”, desabafa.

Por sua parte, Nuno Pereira, presidente da Junta de Oleiros garante que “na sequência da queda de uma árvore, que quase tombou para cima da casa da dona Rosa, quisemos ajudar na remoção da árvore, em segurança para a idosa, e quisemos que ela abandonasse a residência porque a árvore podia cair por cima da casa. Era para evitar que houvesse qualquer incidente com a senhora. Mas ela recusou-se a sair da casa. Nós quisemos ajudar. E conseguimos retirar a árvore, mas foi muito arriscado. Porque ela não quis abandonar a residência”, afirma.

 

                                                           

fotografias cedidas pela família

 

Afirma de igual forma que “esta situação, e muitas outras, já podiam estar resolvidas há muito, só que nunca ninguém quis saber. Teve um presidente de Oleiros, que a minha sogra muitas vezes, até sem dinheiro para comer, investia em bons frangos e outras coisas, para lhe dar, e o senhor prometia e prometia, até a ia buscar a casa para votar nele, mas nunca nada fez para resolver isto do acesso ate à casa dela”, garante.

 

De igual forma explica que o presidente atual da Junta de Freguesia, Nuno Pereira “prometeu-me que o acesso ia ser feito. Disse-me que já está tudo tratado para começar as obras. Mas ainda não começaram. Ele já me disse isso antes de entrar esta doença. Eu tenho ligado várias vezes, pergunto-lhe, e ele diz que agora está parado, porque não se pode trabalhar. Agora a minha sogra caiu, e teve de ser transportada desta maneira como se viu nas fotos. Por causa da senhora ter 92 anos não quer dizer que a tratemos sem dignidade. Mas eles não olham às pessoas de idade. Quem faz pouco dos idosos, faz pouco de qualquer pessoa. E o meu filho publicou isto porque não é vergonha nenhuma. É o escândalo que temos”, assegurou.

 

Maria de Lurdes garante que é o único apoio que a idosa tem “a minha sogra pediu-me por tudo para a ajudar a que nunca a tirem de lá. Que ela quer sair da sua casa no caixão, quando fechar os olhos de vez. E eu sou a única ajuda que a Dona Rosa tem. Porque ela é cega duma vista. E os filhos não estão em condições de a ajudar. Há muitas pessoas que têm tentado levá-la para o lar mas ela pediu-me para ajudar, para que não a tirem da casinha dela”.

 

Por sua parte o presidente da Junta de Oleiros, Nuno Pereira, explica que a obra para a requalificação do ‘Caminho de Airó’ já se encontra protocolada e ainda que “no dia 09/05/2018, enviamos um ofício para a Câmara Municipal, por mail, a solicitar obras de alguns caminhos que não estavam em condições. Foi feita uma primeira intervenção onde foi colocada uma tubená; só que aquilo tem uma subida muito íngreme, pelo qual só foi possível colocá-la até ao meio da subida”. Explicando de igual forma que “naquela estrada há uma curva muito fechada e os carros chegavam lá, e não passavam na mesma. Aquele trabalho não ficou em condições e então, fizemos novamente pressão para fazer um novo protocolo, com data de 30/08/2019, para fazer o alargamento nessa curva para que depois, pelo menos a ambulância pudesse passar. E de igual forma reforçar os muros de suporte da estrada através da construção de uma viga”.

                                                                         

fotografias cedida pela Junta de Freguesia de Oleiros

Primeira intervenção da estrada com data (07/03/2019) 

 

No página oficial da Junta de Freguesia de Oleiros no Facebook, numa publicação com data de 06 de março de 2020, pode ler-se que “depois de solicitados pela Junta de Freguesia de Oleiros e de serem aprovados em reunião da Câmara Municipal de Ponte da Barca, Assembleia Municipal aprova apoio para a elaboração do Projeto de Requalificação da Zona Envolvente ao Cruzeiro de Oleiros e obras no Caminho de Airó”.

 

Nuno Pereira esclarece que o apoio para a realização desta obra “e de outras necessárias na freguesia foi aprovado na Assembleia Municipal do passado dia 28 de fevereiro. Entre tanto, ainda não foi feita a Assembleia de Freguesia (visto a situação do Covid-19) mas assim que a reunião de assembleia de freguesia for realizada e o protocolo votado favoravelmente e devidamente assinado, as obras irão começar”, garante.

 

Explica ainda que “provavelmente a data para a realização da próxima Assembleia de Freguesia será para fins de maio, ou já para o mês de junho. Temos também de organizar e ver as diretrizes das autoridades de saúde. Mas uma vez que o protocolo seja aprovado e, devidamente assinado, as obras irão avançar, e a Dona Maria de Lurdes sabe-o porque eu já lho disse ao telefone”, garante.

 

O presidente de junta mostra-se “perplexo” com a denúncia feita por parte da família na rede social Facebook e comenta aquele post feito no Facebook dá ideia que nunca foi feito nada. E foi. Antes nunca nada tinha sido feito, nunca quiseram saber daquele caminho para nada. Mas nós, ainda há bem pouco tempo, andamos a fazer a limpeza da estrada por causa de um muro que caiu e foi precisamente lá, neste caminho. Foi um muro que suporta a estrada municipal. Entre tanto, a Câmara Municipal já fez lá o muro, por tanto a entrada do caminho está muito melhor. Agora só falta resolver o alargamento da curva, que já está protocolado”.

 

                                       

fotografias cedidas pela junta de freguesia 

 

Garante ainda que “este trabalho já ia ser feito. Independentemente da denúncia feita no Facebook.  Nós temos lutado tanto, pressionado tanto por causa desta questão que parece incrível que, agora que já está quase feito, se façam estas queixas. O caminho vai ser feito porque já está protocolado e a família sabe-o”, garante novamente.

 

Na página oficial do Facebook da Junta de Freguesia, numa publicação com data de 9 de novembro de 2019, podem ver-se as fotografias dos trabalhos realizados no início do Caminho de Airó, depois dum aluimento de terra num fim-de-semana muito chuvoso e de igual forma , fotografias do início das obras desta estrada com o respetivo levantamento do muro numa moradia, também ela afetada pelas chuvas naquele fim-de-semana.

                                                          

Já em fotografias enviadas pela família vê-se o muro da moradia, completamente erguido, e de igual forma, o início do caminho arranjado (foto 1). Mas a família garante que a estrada “só foi arranjada até meio. Porque do meio para a frente continua igual, sem acesso até à casa da minha sogra. Só fizeram a estrada e o muro daquele vizinho. De resto, deixaram tudo igual. Deve ser porque do meio para frente só mora a minha sogra e ninguém quer saber dos velhotes”, garante Maria de Lurdes.

 

                                     

fotos cedidas pela família

 

Vanessa Reitor 

               

 

Escreva um comentário

Nome

Website

Comment