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“Se pagar esta fatura de água fico sem dinheiro para a comida dos meus filhos”, testemunhos em Arcos de Valdevez!

Isabel Rocha e Marina Pinto são duas mulheres arcuenses, mães de família, que além das preocupações que esta pandemia veio impor nas famílias, têm mais uma preocupação: o valor exorbitante que estão a pagar pelo serviço de água e que se está a tornar incomportável.

Isabel Rocha é mãe de dois filhos (um menor e outro com 18 anos) não tem marido, vive num apartamento arrendado e trabalha num estaleiro. Recebe todos os meses o ordenado mínimo “o valor que tenho a pagar pela fatura de água que recebi ontem é um terço do meu salário! É incomportável. Já tinha pago uma fatura anterior de 99,23 euros, e paguei porque ainda tinha débito direto e fui tentar saber o por quê desse incremento, mas disseram-me que provavelmente seria um erro e que fariam uma nota de crédito. Ontem, quando recebi esta fatura, de 150 euros, fiquei incrédula. Esta fatura não a pago, nem a posso pagar. É um valor demasiado alto para quem é sozinha, com dois filhos, sem ajudas, nem apoios de nada e para quem recebe só o salário mínimo. Isto é uma falta de respeito”, desabafa.

Isabel explica que quando viu o montante na fatura percebeu que eram 15,00 euros “e olhei para a fatura mais do que uma vez para tentar perceber se era verdade o que estava ali, e sim, infelizmente era verdade, não eram 15,00 euros mas sim, 150,00…um absurdo”. Refere de igual forma que quando recebeu a primeira carta com o valor de 99,23 euros ligou para a Câmara Municipal para tentar perceber o que se estava a passar e “foi ali quando fiquei a saber que a gestão das águas já não era competência da Câmara Municipal, mas sim desta empresa que nem sabíamos que existia. Nunca ninguém nos informou que a gestão das águas iria mudar. Foi nesse telefonema que fiquei a saber que a pasta tinha sido passada. Eu volto a repetir, como é possível que eu, com dois filhos, tenha de pagar desde janeiro até agora quase 250,00 euros de água? (somatório das 2 faturas) é impossível! Não consigo”.

Refere ainda, que já tentou contactar várias vezes a empresa ADAM pelo número de telefone que aparece nas faturas mas “ninguém me atendeu, e liguei várias vezes. Resolvi então ligar para o número das avarias e atendeu-me um senhor muito prestável, que me disse que tem recebido muitos telefonemas como o meu, com imensas reclamações, e que a única coisa que ele podia fazer era tentar passar a chamada para o escritório. E assim o fez. Mas mais uma vez, ninguém atendeu!”.

Isabel assegura que já cancelou o débito direto e que “não irá pagar esta fatura. Porque se eu pagar este valor absurdo só pela água vou ficar sem dinheiro para o resto das coisas. Pago renda de casa, luz, água, alimentação e as coisas para os meus dois filhos…explique-me como é que eu faço?” Garantindo ainda que “se fosse só eu a me queixar, ou a receber estes valores, podia pensar que era uma avaria no meu contador o algo do género, mas isto não é só comigo. Eu estou a ver centenas de pessoas a fazerem queixa. Valores de 200 e tal euros….isto não pode ser. Não pode ser que os pobres andem a sustentar os ricos!”.

E continua “se isto tivesse sido para bem do povo teríamos sido consultados. Mas a pasta foi passada a uma empresa privada e ninguém nunca nos consultou, sequer, para saber se nós achávamos pertinente. Isto devia ter sido uma passagem para ajudar o povo, não para prejudicá-lo. Eu acho que a oposição, os outros partidos, deviam-se manifestar publicamente, acho eu. Porque isto é um roubo a olhos vistos. Eu não vou pagar esta fatura, e já os avisei. Se me cortarem a água, vou fazer queixa formal contra a empresa”.

Isabel deixa um apelo a todas as pessoas para “assinarem a petição para isto chegar ao governo e possa ser resolvido. Era um bem para todos. E é isso que eu peço. Que todos possam assinar a petição para conseguirmos resolver este flagelo”, culmina.

Para Marina Pinto, de 34 anos, a situação é bastante mais grave. Também ela é residente em Arcos de Valdevez, na freguesia de Giela. É mãe de dois filhos de 13 e 9 anos, desempregada e com o marido a trabalhar na França, mas desde há um mês que ele também não recebe ordenado por causa da empresa ter suspendido a atividade como consequência do Coronavírus. O seu testemunho é arrepiante “para mim uma fatura de 50 euros, quando pagava 20 e tal é muito. É uma diferença demasiado grande. É quase o dobro. Eu tenho dois filhos pequenos. O meu marido está em França retido, sem ganhar dinheiro, provavelmente a passar fome, e é assim que nós estamos”.

Marina afirma que na fatura que recebeu “vão buscar valores de dezembro que já tinham sido pagos. Eu estive a confirmar com as fatura que já tenho pagas e foi essas contas que foram buscar. É assim que eles vão aumentando ao custo. Eu nunca soube sequer que a Câmara já não tratava das águas. Só soube agora quando recebi esta fatura. Eu neste momento estou desempregada e os meus filhos têm muitas necessidades, precisam de muitas coisas”.

Afirma que “já tentei entrar em contacto com a empresa, mas eles não atendem. Como é que a gente vai conseguir falar com eles? Não podemos falar com eles porque até a loja que eles têm no Mercado Municipal está fechada. A minha situação é muito difícil. Eu estou a pagar 300 euros de renda. Dei dinheiro para a renda e fiquei quase sem dinheiro para comprar comida. Percebe? Não é fácil”, desabafa.

A Marina ficou desempregada desde que a pandemia começou “eu estava a fazer trabalhos domésticos numa casa. Mas desde que isto começou e a escola encerrou, a senhora disse-me para eu não ir mais porque não valia a pena, e eu fiquei sem rendimentos nenhuns. E o meu marido está na França, parado, sem ter como trabalhar…o patrão pagou-lhes metade do ordenado. Mandou o dinheiro para mim, para eu tratar das contas cá e ele ficou com muito pouco para ele”.

Esclarece que, assim como a Isabel “eu também vou bater o pé e não vou pagar essa fatura. Eu não consigo pagar essa fatura. É inadmissível. Isto é roubar o próprio pobre. Enquanto eles têm um ordenado de 5.000 euros nós temos um ordenado de 200 por mês. Eu no meu trabalho recebia 20 euros por dia. E trabalhava 4/5 horas…aquilo que me valia é que almoçava lá e já era menos um gasto que eu tinha. E trazia frutinha, e muitas coisas para casa. Agora não trago nada, perdi tudo!”.

Marina trabalhava nesta casa três vezes por semana e explica que “desse dinheiro eu tinha de pagar os meus descontos. Já meti os papéis na segurança social para receber algum, mas disseram-me que eu não tinha direito. Mas para pagar a segurança social todos os meses tenho de ter direito. Os últimos 35 euros que eu tinha na carteira foram para pagar a segurança social para um dia, quem sabe, poder ter uma reforma. É triste. Este país é triste! Arcos de Valdevez está a ficar uma tristeza total!”, desabafa em lágrimas.

Também ela já foi assinante na petição pública que está a circular pelas redes sociais e que pede o fim da empresa Águas do Alto Minho (ADAM) e diz que foi esta a maneira que encontrou para demonstrar o seu descontentamento com aquilo que chama de ‘roubo’ aos arcuenses “isto tem de acabar. É inadmissível. A gente anda todos os dias a sofrer para por comida dentro de casa e essas pessoas, desde que entraram para isso, estão-nos a tirar o pouco sustento que a gente tem. Sei de casos de pessoas que têm reformas de 250 euros e já receberam contas de água quase com esse valor! ”.

Confessa que esta situação está a ser um desespero total. Eu tinha ajudas de comida que ia buscar de 15 em 15 dias à Cáritas e agora isso também fechou. Agora sim não temos ajuda de nada. E eu não posso deixar os meus filhos sem comer. Tenho de tentar encontrar sempre comidinha para por na mesa para eles. Sabe, esses senhores que mandam deviam vir pelas freguesias e perguntar o que é que nós precisámos. Ou se temos um prato de comida, ou de sopa para os nossos filhos. Mas não, eles não são capazes disso. Têm o bolso cheio, enquanto nós pobres, necessitados, temos uma miséria e ainda temos de lhes pagar o ordenado. Há muitos concelhos que aderiram para as pessoas não pagarem as suas contas até ao mês de agosto ou setembro, e já seria uma ajuda, mas nós aqui não, aqui levam-nos tudo e mais alguma coisa. As famílias não conseguem. Ninguém que saber de nós. Só querem saber de nós na altura das eleições. Nessa altura sim prometem tudo e mais alguma coisa!”.

A situação difícil na qual se encontram a Marina e a Isabel não são casos isolados. Em Arcos de Valdevez existem, atualmente, inúmeras famílias que estão a passar grandes dificuldades económicas não só pela pandemia mas também pelo incremento nos preços nos serviços mais básicos e indispensáveis para a sobrevivência. O Pasquim da Vila faz um apelo ao Município para ativar o “Fundo de Garantia Social” para socorrer a família da Marina e muitas outras, que estejam em situações semelhantes.

Temos ouvido frequentemente frases como ‘Vai ficar tudo bem’ e ‘Estamos todos no mesmo barco’ mas quando conhecemos historias tão tocantes como estas, conseguimos confirmar que, infelizmente, não estamos todos no mesmo patamar. Há pessoas que depois de tudo isto irão precisar muita ajuda porque as suas vidas ficarão, por diversos motivos, bastante fragilizadas e o chamado é para que as entidades competentes possam criar planos que realmente vão de encontro às necessidades desta população menos favorecida e que possam encontrar nestas ações, a tábua de salvamento de que precisam para pelo menos, conseguirem flutuar, enquanto encontram a maneira de agarrar novamente no leme das suas vidas.

 

“Erradicar a pobreza não é um ato de caridade, mas de justiça”

Nelson Mandela

 

Vanessa Reitor

 

 

 

 

 

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  1. Quando vão votar não querem saber votam no que ganha, é tão bom ganhar não é? podemos comemorara vitória e tudo, é tão giro. São todos iguais dizem quando lá estão não querem saber de nada. Mas não, não são todos iguais, à alguns que são nossos iguais, mas querem ser iguais aos que são não querem ser iguais a nós e votam neles (aguenta) a “água é de todos não é para privatizar” esta frase lembra alguma coisa?

  2. Estou de acordo com estas pessoas ,pois o sofrimento de todo um povo que luta pelos seus direitos ,isto é uma autêntica roubalheira, havia nos de fazer uma manifestação a nível camarária ao junta de freguesia e mandar essa gente dar uma volta .(ladroes).

  3. Post comment

    Maria de Lourdes Neto Calçada says:

    Os ….. que estão a fazer tudo para nos controlar. Reparem bem, tudo ao mesmo tempo e a nível mundial, não é teoria, é uma realidade de conspiração contra a humanidade. Três coisas fundamentais para ficarmos nas mãos de…”iluminatis?” Novo coronavirus, privatização de águas, controle total através das redes sociais de cada um de nós, de tudo o que fazemos ou dissermos. Coincidência? Não é não, salta á vista de todos. Está na hora da mudança. Não vão na cantiga de voltar ao mesmo, isso significa ficar tudo ainda pior do que estava. Temos provas de que a poluição são eles que a estão a provocar, até o plástico nos rios e oceanos, têm sido sempre eles. O degelo no Pólo Norte são eles, por causa de um mineral, único no planeta, que não tem utilidade para nada que existe para o público em geral, só para naves extraterrestres (decomentario no canal “História” em que alguns dos delatores, perderam a vida por terem falado). Essas naves são fruto de “acidentes” que “alguém” recolhe e ninguém sabe para quê ou porquê. Também vão começar a fazer o Pólo Sul começar a descongelar no próximo ano, querem saber o que são uns túneis subterrâneos debaixo do gelo, o que está na origem desses túneis. O próprio Trump já deu com a língua nos dentes, quando disse isso mesmo, que não havia poluição e nem degelo no Pólo Norte, pois era necessário recolher o tal minério, divulgou, também, que em nome da “ciência” teriam que começar com o degelo no Pólo Sul. Daí, ele não ter ido á convenção internacional do clima. Cabe a cada um fazer o que lhe for possível para acabar com a brincadeira. É só procurar como. Neste caso da água, o melhor é não pagar, se ninguém pagar nunca, alguma coisa terá que acontecer. Se cortarem a água, existe forma de lhes tirar o risonho da cara, é fazer o que muitos já fazem com a luz, e não é muito dificil, acredito que vai haver quem o fará gratuitamente, só para “xatear” esses anormais

  4. Sei o que é isso também crio dois filhos sozinha tenho aluguer da casa água luz gás comida medicação não é fácil, só Deus na causa… Não há ajudas de lado nenhum para mães sozinhas

  5. Não paguem, pois sendo a agua um bem essencial eles não vos podem cortar o abastecimento.
    Reclamem e divulguem o vosso estado. Isto é que é a democracia????

  6. …privatização da água por grupos economicos…
    …ja se fazem grandes negociatas em surdina nos bastidores da união europeia …
    A ideia é privatizar a nivel global o negocio da água. ..
    Será mesmo a muito curto prazo um negocio mais lucrativo do que o proprio petroleo…
    Estima-se que já em 2025 1/3 da população mundial não tenha acesso directo à agua…

    Manifestem-se
    Façam barulho
    Não o permitam
    Não paguem …