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Desabafos em tempo de covid-19!

Nunca fui de pedir nada a ninguém, mas começo a pensar que realmente este país não é para trabalhadores, e muitos menos para empreendedores. Este país não está feito para pessoas que têm de buscar a forma de sobreviver porque não tiveram a sorte de encontrarem um emprego onde a mérito seja necessário para receber ao fim do mês.

Não, nunca tive esse privilégio, e sinceramente nunca me importei. Até a data, acreditava que algum dia alguém iria reconhecer o nosso valor e ai quem sabe. Como não sou de famílias de berço, e muito menos ligada à política, tive que arregaçar as mangas e fazer-me à vida, porque as contas são certas.

Só havia uma solução. Pegar naquilo que faço de melhor e a partir dai, tentar ganhar uns tostões. Isto é: criar o meu negócio. Confesso que até estava a correr bem, não que me estivesse a converter numa Kardashian, mas conseguia contribuir com as despesas de casa, e ao mesmo tempo, conseguia manter a minha satisfação pessoal e profissional.

É sabido que os nossos atos acarretam consequências, mas ‘quem não arrisca não petisca’ , isto tudo me passou pela cabeça quando criei o meu projeto, o menino dos meu olhos. Sabemos que quando trabalhamos a recibos verdes a única certeza que existe é que conseguimos garantir, pelo menos, a nossa segurança social ao pagarmos todos os meses a contribuição que nos corresponde e quando ultrapassados os 10.000 euros, algo assim como 30% do faturado vai para o estado. Resumindo: com um bocado de esforço, muita disciplina e correndo alguns riscos pelo meio, quem trabalha por conta própria, pode ser que no final do ano, tenha um pezinho de meia. Sim, já sei o que muitos pensam: a opção de ser trabalhadora independente foi minha, eu sabia que haveria riscos, e é verdade. Mas também é verdade que não significamos um peso para a economia nacional, muito pelo contrário. Mas disso vou falar mais à frente.

Face a todos os acontecimentos relacionados com a COVID-19 aquilo que mais ouvimos dizer é: “VAI FICAR TUDO BEM”, e confesso que eu também gostaria de o dizer com essa certeza mas a realidade é que não posso! A realidade é que eu achava que tinha pensado em todos os riscos, mas pelos vistos, não!

O governo tem sido incansável na procura de planos e possíveis ajudas para ‘algumas empresas’ e também para todos aqueles que trabalhamos a recibos verdes. Então, ao submeter o meu processo  porque não estou a faturar, consequência do isolamento, fiquei a saber que (caso aprovem o pedido) o valor a receber não ultrapassará os 438,81 euros (valor máximo para pessoas na minha situação).

Imediatamente comecei a ser consumida por vários sentimentos: ingratidão (por parte do governo) e humilhação! Sim, humilhação! E por quê? Porque começo a pensar que seria bem mais fácil ter evitado todas as dores de cabeça que gera a criação do próprio emprego e fazer como outros que, alegando não encontrar nenhuma oportunidade no mundo laboral, candidatam-se ao rendimento mínimo libertando-me assim, de encargos e preocupações. Humilhação não porque ache que o valor seja irrisório, porque tenho consciência que existem muitas famílias a tentarem viver com esse valor, mas sim porque o nosso trabalho e esforço diário fica igualado a todos aqueles que, sem sequer trabalharem, recebem o mesmo. Todos nós conhecemos, pelo menos, um caso assim, por isso saberão que não estou a mentir! Quero frisar que não sou contra qualquer tipo de ajuda que os governos possam dar aos seus cidadãos, mas como todos sabem, por vezes as ajudas não chegam a quem precisa, mas sim a quem mais ‘chora’ e que ao vasculhar o seu historial, lá terá um padrinho, tio, amigo, antepassado ou até, presidente de junta, que faz que essa ajuda chegue de forma mais célere que ao ‘ti Manel’ ou à ‘dona Maria’ que realmente precisam.

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Nós, os trabalhadores independentes não representamos carga absolutamente nenhuma para o estado. Nós somos os nossos próprios chefes. Nós próprios pagamos os nossos impostos para que, quem sabe um dia, também possamos usufruir da reforma e, quando aparecem situações que também colocam em risco a nossa produtividade e a nossa única forma de ganharmos o sustento, as ajudas são côdeas.

Vou voltar a frisar que não tenho absolutamente nada contra as ajudas sociais e que estou perfeitamente consciente que o risco que implica trabalhar por conta própria sempre existiu, mas a forma como algumas medidas são implementadas é que devia ser revista. Nós, os trabalhadores independentes não representamos uma carga para a economia nem para o Estado. Mas também estamos a ser vítimas desta crise económica e uma vez que foi aberta a possibilidade de apoio para todos os trabalhadores independentes, essa possibilidade devia ser pelo menos, bastante mais respeitadora para com todos aqueles que mês após mês cumprem com o pagamento das suas próprias contribuições muitas vezes pagando os impostos sem sequer ter recebido, e outras tantas, tentando sobreviver a aqueles que pedem os serviços e depois não pagam!

Por tudo isto, é que vos digo que eu também gostaria muito de sentir que Vai ficar tudo bem! Mas a realidade que vejo assusta porque seremos vítimas duma onda que cada vez mais fica perigosamente  avassaladora e que ameaça com afogar todos aqueles que sempre tentaram, sozinhos, sobreviver à tona da água.

Vanessa Reitor

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