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ANTÓNIO VARIAÇÕES E OS TRÊS INTELECTOS: agente, contingente e individuado

António Joaquim Rodrigues Ribeiro, nascido e crescido na freguesia de Fiscal, concelho de Amares, distrito de Braga, possui uma história que, de certo modo, pode ser equiparada à história milhares de portugueses. Com uma diferença: tornou-se no singular cantor António Variações.

Nascido em 1944, naquilo a que se entendeu chamar de ruralidade, este então desconhecido era um dos 715 habitantes daquela pequena freguesia a norte de Portugal (715 habitantes é o valor de 1940 de acordo com a projeção feita pelos Censos 2011). Uma probabilidade numérica reduzida, associada a um contexto social pouco propício para a geração de uma figura tão avassaladora na cultura portuguesa.

A vida de António Ribeiro – como era conhecido antes do estrelato – não foi muito diferente da de milhões de portugueses que nasceram e cresceram na ruralidade: filho de pais camponeses e sem muitos recursos, era um de 12 irmãos (embora dois deles tenham falecido muito cedo). Cedo dividiu os estudos, que concluiu até à quarta classe, com tarefas de auxílio nos trabalhos do campo. Pelo que se sabe, ia regularmente à missa, como a maioria dos portugueses dos meios rurais da altura. Naquela pequena freguesia, encontrava na figura do Padre o topo da hierarquia simbólica e intelectual.

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Pelo que nos dá a entender o relato fornecido pelo diretor e argumentista João Maia, no filme Variações, até aos 12 anos de idade António Ribeiro vivia marcado por um ritual Pascal característico nas localidade: na visita Pascal, o compasso fazia uma espécie de viagem marítima sobre o rio Homem, de modo a levar a cruz aos lugares de São Bento e de São Pedro, onde se situavam 20 das 300 casas da freguesia. Essa tradição, muito apreciada pela comunidade fiscalense, ordena que sejam quatro os barcos a atravessar o rio: no mais pequeno deve ir o fogueteiro, para celebrar a efeméride com foguetes; noutro vai o pároco, os seus ceptros de poder e os mordomos; nos restantes, seguem os membros da banda de música.

É fácil de perceber, entre aquelas três “formas” (fogueteiro, clero e música), qual o fundo arquétipo que mais seduziu António Ribeiro: a banda de música. Nisso, João Maia foi exímio ao lançar o desafio visual. Colocou na mente do telespectador uma primeira associação mental: a música cairia na vida de António Ribeiro por relação entre a tradição mais característica da sua aldeia (qualquer coisa de fora para dentro) e uma espécie de pré-fascínio, meio instintivo, pela música.

Mas João Maia faz mais: noutra sequência do filme, mostra o pequeno António Ribeiro, já trabalhador de uma fábrica de brinquedos em Caldelas, a trabalhar e a ouvir Amália Rodrigues. O respeito que ele manifesta por Amália, o do patrão e o dos restantes trabalhadores parece ser tanto que enquanto a voz dela ecoa a partir da rádio, todos ficavam em silêncio a contemplar, só recomeçando a labuta no fim da música. Ou seja, João Maia evidencia dois princípios dedutivos, portanto de fora para dentro, como causas de uma sedução para o universo da música, para a geração de um desejo de se tornar cantor: a banda de música que percorre o rio a tocar e a voz da Amália a sair do rádio.

Se quisermos anunciar isto em número de atores que influenciariam o início do desejo de António Ribeiro em se tornar cantor, teríamos:

  1. A vida em Fiscal e a sua contingência (associação 1)
  2. O ritual Pascal (associação 2)
  3. A banda de música (associação 3)
  4. A Rádio (associação 4)
  5. A presença assídua da voz de Amália Rodrigues (associação 5)

Destes “atores”, podemos dizer que os cinco são dedutivos, que se associam de fora para dentro, embora o segundo e o quinto se possam relacionar com António Ribeiro por perspetivas mais indutivas: por um lado, o fascínio ao universo místico que a Páscoa concentra em si própria. Trata-se das celebrações em torno do arquétipo-mor da cultura cristã: Jesus Cristo; por outro, o fascínio e a adoração coletiva que Amália despontava – uma espécie de representante do povo português, na época a par de Eusébio (o futebolista), especialmente nas longínquas zonas rurais de Portugal.

As relações, em João Maia, parecem começar assim: a partir de associações simples, de fora para dentro, de uma exterioridade, para depois se complexificarem e se tornarem arquétipos poderosos. Uma leitura que nos coloca a pensar em relacionar o ator-na-rede e a formação de “arquétipos”. Não serão os arquétipos iniciados sempre desta forma? Primeiro como tendo origem em simples associações factuais sobre os atores e depois como o resultado de uma inflação das identificações entre o Ego e a imagem que posteriormente se naturaliza no interior daquele que “mastigou” uma imagem ou uma personagem em determinada contingência da sua vida? Ou será esta uma forma simplista de um argumentista produzir a geração de um arquétipo?

Deixemos para já estas inquietações, e a tentativa de articular a teoria do ator-rede com a teoria dos arquétipos. Foquemo-nos em António Ribeiro, que de uma ou de outra maneira expressou várias vezes o amor e o respeito a Amália, em música e em tributos pessoais.

Depois destes primeiros 12 anos de vida na freguesia de Fiscal, António Ribeiro ruma a Lisboa. Como muitos outros portugueses, queria “sair dali”, encontrar na cidade um “pensamento em frente” – tal como escreveu 25 anos depois na música “Olhar para trás”:

E assim saí daí

de olhar para trás pensamento em frente,

em frente não havia mais nada não,

Em frente não havia mais nada não,

do que um comboio, a cidade,

um navio e um avião.

Podemos então dividir em três as forças que, por intermédio de João Maia no ecrã, marcaram António Ribeiro, tornando-o António Variações: uma primeira, a que podemos chamar de uma espécie de “intelecto agente”; uma segunda, a que chamamos de “intelecto contingente”; e um terceiro, mais tardio, a que chamamos de “intelecto individuado”.

A primeira grande força, o intelecto agente, é uma força que o faz agir e mudar em direção à “cidade”. Não é algo que se possa precisar exatamente, nem algo de concreto, daí a expressão “intelecto agente”. É uma força de movimento, de urgência, de mudança, quase instintiva. O que, de certo modo, compreende forças de imitação (imitação de tantos outros portugueses que da ruralidade emigraram para os centros urbanos à procura de outras condições e oportunidades) e de adaptação (uma urgência quando se sente que é necessário entrar na corrente para encontrar um caminho próprio).

É patente nesta música, talvez a mais autobiográfica de António Variações, uma explicação prática, factual. Na primeira estrofe, canta assim:

Já fiz exame da 4ª classe,

já fiz a comunhão solene,

para pensar na vida já tenho idade,

mãe quero ir ganhar dinheiro,

pai quero ir para a cidade.

Como relata António Ribeiro, “mãe, quero ir ganhar dinheiro; pai, quero ir para a cidade”. Esta ideia de ir para a cidade ganhar dinheiro foi uma força factual. Eram poucas as oportunidades de trabalho e de progressão no elevador social numa pequena aldeia como é Fiscal e num concelho rural como é Amares. Até aqui tudo é pragmático e pouco ou nada místico.

Mas este “agente”, este agir irrequieto, este “muda de vida se não te sentes satisfeito, muda de vida porque estás sempre a tempo de mudar” que anos mais tarde António Ribeiro iria escrever e cantar, esteve de modo constante a assombrar a sua existência. Mesmo no lado mais pragmático no desenrolar da sua biografia: vai para Lisboa, trabalha como aprendiz de escritório, de barbeiro, de balconista e de caixeiro. Depois, cumpriu o serviço militar em Angola e, já um pouco desiludido com Portugal, parte para a aventura no estrangeiro: primeiro Londres (em 1975); depois Amesterdão, alguns meses depois.

Pelo que nos dá a entender a investigação de João Maia vertida no filme, é em Amesterdão que a mudança “constante de vida”, o tal intelecto que o leva a “agir”, lhe permite desenvolver novas relações, novas associações: toda uma nova forma de estar, ética e estética, e uma profissão que vai aprendendo e desenvolvendo: a de barbeiro. Com a ajuda de um amigo, Variações regressa a Portugal como profissional de barbearia e é admitido no Ayer, o primeiro cabeleireiro unissexo a funcionar em Portugal. Precisamente, e outra vez, em Lisboa.

É aqui que estabelece outras relações, que lhe permitem novas associações: conhece Júlio Isidro. Passa a ser o seu barbeiro. E é a este que confia o seu desejo maior: querer ser músico. Viver da música. Ser famoso a cantar.

Podemos dizer que é aqui que o “intelecto agente” dá espaço ao aparecimento de um outro tipo de intelecto: o “contingente”, essa massa de possibilidades que se tornam factícias, favoráveis, possíveis nos diferentes momentos. Portugal saía do Estado Novo, vivia com fome de mundo, com fome de vida para além de uma longa ditadura de 40 anos. Desejava por novos heróis, por referências arrojadas e de acordo com os vizinhos europeus que nos pressionavam de várias formas: o cinema, a música, a moda, o pensamento. Novas possibilidades de associação nascem desta contingência para António Ribeiro. E ele percebe isso.

Assim, encontra nos finais dos anos 70 o recorte temporal perfeito para erguer a sua “persona” (António Variações), para dar rosto e voz a uma nova visão do mundo. Inspirado pelo rock New Wave oriundo sobretudo de Londres e pelo tecno que provinha dos EUA, “diferiu imitando”. Quer dizer, pegou nas tradicionais vocalizações do fado da sua adorada Amália (através de falsetes característicos e típicos do fado) e misturou-os com ritmos pop-rock, mas com letras e rimas inspiradas em léxicos e aforismos populares portugueses: “quando a cabeça não tem juízo, o corpo é que paga”; “toma o comprimido que isso passa”; “não deixes para amanhã o que podes fazer hoje”. A inspiração é clara em músicas como “Visões-Ficções”, onde sugere o impacto do cinema internacional nos seus acontecimentos mundanos:

Não vos quis impressionar

São tudo fantasias que o cinema projetou no meu olhar

A contingência “New Wave”, e uma certa estética resultante dos mundos da moda e do ecrã, permitem-lhe “ventos favoráveis”, novas possibilidades, misturas provocadoras: imita o tradicional (cantar em forma de fado), opõe-lhe o moderno (ritmo rock e som tecno) e adapta-lhe uma estética arrojada com um certo sentido tradicionalista que expressava em gestos ou em batidas muito comuns no folclore português (como por exemplo no caso de “É Pra Amanhã”). Cumpre, na íntegra, os princípios tardeanos da vida em sociedade: imitar, opor e adaptar-se.

Ao confiar depois em Júlio Isidro, elo de ligação perfeito na contingência porque este ocupava um lugar de destaque na programação cultural da RTP, entrega-lhe maquetes, que por sua vez vão parar às mãos de pessoas ligadas à rádio e à produção musical. A qualidade das gravações, ainda que baixa, é suficiente para deixar qualquer produtor a desejar por mais.

À medida que evoluía na produção musical, e na conciliação trabalho-música, um novo intelecto vai-se instalando após a grande concretização do sonho de ser uma estrela da música, já com álbuns editados: eis o aparecimento do “intelecto individuado”. Individuado é aquele que, independentemente das exterioridades contingenciais, verte no mundo as singularidades agora suas. E é isso que doravante passa a fazer António Ribeiro: procura mais e mais palco, mas de modo crescentemente harmónico. Deseja tocar perto de casa, regressar, mostrar todo o amor às suas raízes: cria a música “Deolinda de Jesus”, uma homenagem à mãe que demonstra toda a sua felicidade; e cria “Voz-Amália-de-Nós”, gritando, individuado e já sem qualquer vontade de esconder a forte influência de Amália na sua vida:

Fiz dos teus cabelos a minha bandeira

Fiz do teu corpo o meu estandarte

Fiz da tua alma a minha fogueira

E fiz do teu perfil as formas da arte

A partir daqui o resto é a história que todos conhecem, até ao aparecimento da doença que o leva à morte.

Pedro Costa

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