Skip links

AS METÁFORAS EM “JOKER”

A METÁFORA “JOKER” (em Todd Phillips)

E O SER SOCIAL COMO CONSEQUÊNCIA DE ASSOCIAÇÕES CONTINGENTES

Pedro Rodrigues Costa

sociólogo e investigador do CECS (Universidade do Minho)

“Joker”, de Todd Philllips, parte de um conjunto de metáforas: o triunfo da sociedade sobre a eugenia; a construção social do criminoso; a oposição pobre-rico como fator de criação de revoluções e desigualdades. Gotham, palco do crime, da desigualdade e da corrupção, é a metáfora maior, sublinhando o princípio de Rousseau: o homem nasce neutro e a sociedade, progressivamente, realça ou educa para os aspetos mais negativos do ser. Contudo, dizer que “a sociedade corrompe o ser” não deve satisfazer a ciência social. Isto é pouco para explicar as grandes perguntas implícitas no próprio filme, que Todd Phillips parece perseguir: como se cria um Joker? Como se contagia para o crime ou desvio?

Vamos por partes. Vou explicar sucintamente a minha sociologia das associações contingentes para depois pegar nas metáforas de Joker e expor os assuntos da trama.

Antes de tudo, com um objeto ou com um ser, preciso de estabelecer uma relação para sentir ou sofrer algum tipo de afeção. Uma relação implica afeção recíproca entre dois ou mais entes. Só a partir de uma relação que estabeleço com o objeto ou ser é que nascem possibilidades de me associar ou dissociar das possibilidades conferidas pela afeção recíproca. Se vejo uma pedra grande no caminho, tenho que me desviar. Ela influi sobre o meu trajeto, estabelece-me uma limitação espacial. Contudo, influi sobre mim de modo estático. Já com um ser há uma diferença substancial: o ser é dinâmico. Pode observar-me. Pode sentir-me. Pode responder-me. Uma planta carnívora, por exemplo, muda de comportamento com a minha passagem. Já um cão é muito mais sofisticado e detém um repertório de respostas superior. Porventura, um humano coloca-me um conjunto de outros desafios. Portanto, a relação depende do tipo de objeto ou de ser, e da sua estática ou da sua dinâmica. Em Sartre, é o olhar entre seres que cria uma dinâmica mais complexa na medida em que o ser passa de “ser-em” para “ser-com” (Sartre, 1993, p. 278). Numa perspetiva mais lata, é Max Weber quem sugere que “a relação social diz respeito à conduta de múltiplos agentes que se orientam reciprocamente em conformidade com um conteúdo específico do próprio sentido das suas ações” (Weber, 1991, p.7). 

Assim sendo, uma relação implica diferentes respostas. Cada resposta implica diferentes associações ou dissociações. Entre mim e a coisa. Uma relação implica um conjunto de associações, que irão depender das dinâmicas e estáticas geradas pela relação. Se me relaciono com a pedra de modo a pensá-la como obstáculo, associo-me por exemplo à ideia de me desviar dela e dissocio-me por exemplo da ideia de a usar para outros fins. Associo a pedra a um obstáculo e não como um instrumento ou meio de uso. Isso orienta-me para um conjunto de possibilidades diferentes.

Além disso, dentro de cada associação moram inúmeras formas de imitação, oposição ou adaptação. Se me desvio da pedra, posso fazê-lo de diversos modos: saltando, desviando de modo lateral, desviando apenas o passo, etc. Assim, a minha relação com a pedra coloca, à minha associação-pedra-como-obstáculo, várias possibilidades de a contornar. O que eu faço é escolher um modo de o fazer. Essa escolha foi por mim percebida ou imitada. Na maioria das vezes, eu já vi como é que muitos se desviam de um obstáculo. E uso respostas semelhantes.

Podemos usar um exemplo mais sofisticado: um cão que vem ter comigo, ladrando-me. Se eu for um profissional do amestramento de cães, certamente que terei um reportório de soluções apreendidas, que sei que funcionam porque já provei ou imitei antes. Pelo contrário, se não sei nada de cães, uso uma espécie de conhecimento comum: movo-me devagar e tento mostrar posturas meigas. O que pode não resultar. Isto significa que eu repesquei um conhecimento comum, uma imitação comum, que se tornou comum provavelmente por funcionar para muitos que a experimentaram antes, durante milhares de anos. Ora, a minha relação com o cão conduziu-me a um conjunto de possibilidades. Dessas, associei-me à que conhecia por senso comum. Imitei esse senso.

Vivemos com estes processos diariamente. Em todo o tipo de atividades, e de modo mais ou menos complexo, as relações criam-nos diversas possibilidades. E estas, por sua vez, conduzem-nos a variados tipos de associação e que, por seu turno, nos conduzem a vários tipos de imitação possíveis.  

É por esta razão que defino a sociedade como um conjunto de imitações. Mas todas estas são contingentes, na medida em que dependem da relação existente e das possibilidades de associação que os diversos momentos proporcionam. A sociedade efetiva-se, e torna-se consistente, a partir da repetição. Mas não vive em ciclo fechado. São, pois, as oposições e as adaptações às imitações comuns, dentro de um quadro de associações possíveis, que a renovam e a conduzem a novos estádios, a outras condições de possibilidade, a outros tipos de associações possíveis.

Uma imitação comporta, portanto, um conjunto de associações. Não imito apenas o gesto, mas também uma direção, um impacto, uma ética, uma lógica ou uma filosofia. Neste sentido, a sociedade é a imitação composta por inúmeras associações. E essas acontecem no presente tendo em conta o legado do passado, quer dizer, formando a contingência. A contingência é esse recorte de tempo que reflete o possível no presente e que advém de um potencial passado. Por isso digo que a sociedade, composta de imitações, oposições e adaptações, gera um volume de associações e dissociações na contingência. É isso que define a sua dinâmica permanente. Voltemos ao exemplo da pedra: se no momento em que me confronto com a pedra, eu estiver a necessitar de um objeto de arremesso, porventura a minha relação com essa poderá gerar a associação-pedra-como-objeto-de arremesso. Portanto, dissocio-me da ideia de pedra-como-obstáculo. A associação que faço com a pedra é contingente, depende da minha situação de momento. Utilizarei um repertório de imitações sociais – o ator que pega na pedra e a usa como arremesso para acertar em algo – que me vão conduzir à associação da ideia de pedra-como-objeto-de-arremesso e me dissociam da ideia de pedra-como-obstáculo.   

Destarte, posso não imitar. Posso me opor às imitações que me chegam. Ou posso simplesmente adaptar-me: retirar partes da imitação comum no meu contexto e impor a minha subjetividade. Veremos como por exemplo Joker imita, mas também se opõe fortemente às exigências da norma social. Se imito, sou elo de ligação de intersubjetividades; se me oponho, sou elo de geração de novas intersubjetividades, que passam a circular na comunidade que me envolve.

Assim, entendo que o ator social vive no meio de redes de imitações contingentes, ainda que elas nasçam não apenas de imitações, mas também de oposições e adaptações contingentes às imitações mais comuns. Por seu turno, essas redes, por onde circula o ator, podem gerar maior ou menor associação, maior ou menor dissociação. O imitador tende a gerar maior número de associações contingentes à rede que interliga o gesto de imitar, e o opositor (ou cético) tende a gerar maior número de dissociações face à imitação que lhe é dada. O adaptador, por seu turno, deambula entre associações e dissociações. Em suma, todos temos algo de imitador, cético ou adaptador.   

Para entender uma dinâmica social, é fundamental entender a relação, as associações ou dissociações derivadas, e as imitações, oposições ou adaptações concretizadas. A metodologia desta sociologia das associações contingentes utiliza o “método indiciário” de Carlo Ginzburg (1989) como forma de seguir os “indícios” ou “pistas” através do mapeamento das associações ou dissociações (a que vamos chamar de An’(associação x) ou Dn’ (dissociação x), bem como das imitações, das oposições e das adaptações inerentes. Neste caso concreto, as associações são efetuadas por Todd Phillips, e não pelos atores em causa na medida em que estamos a analisar um filme.  O que significa que a tradução dos sentidos é expressa por associações e dissociações não dos personagens mas do argumentista.

Posto isto, entremos no filme.

Arthur Fleck, personagem que se “ergue” Joker ao longo da trama criada por Todd Phillips, é atravessada pela metáfora do triunfo da sociedade sobre a eugenia. Ao contrário de muitos filmes sobre heróis e vilões, não há nada de inato ou de genético na personagem. O vilão não aparece sem mais, como que se estivesse predestinado a sê-lo, como se fosse atravessado por genes maléficos. Pelo contrário, é “trabalhado”, negligentemente produzido por sequências de associações, dissociações e crueldades.

Arthur é aquele adulto respeitador mas frágil e inseguro, que vive com a também frágil mãe, marcado por um distúrbio raro (que veremos adiante como esse distúrbio poderá ter sido originado por maus tratos infantis): riso súbito diante de situações de tensão, desconectado da emoção ou sentimento. Uma contradição nervosa que o leva a ter um cartão a explicar a situação em caso de crise.

Desde tenra idade que a sua mãe fez Arthur acreditar que o pai havia fugido. Insistia, há 30 anos, em Thomas Wayne, o seu antigo patrão, como a pessoa que poderia tirar aquela pobre família da miséria. Salienta constantemente a sua bondade. Nota-se, ainda que de forma subtil, que a fragilidade emocional de Arthur se deve não apenas à doença de riso súbito, mas também ao conjunto de pequenas ingenuidades e ilusões que a mãe, de modo meigo mas convincente, fora criando na mente daquele que se tornaria Joker.

Mas a metáfora “Joker” continua. Arthur, então sem figura paternal presente, encontra no ecrã uma referência masculina, um arquétipo: Murray Franklin (Robert De Niro), comediante e apresentador de um programa televisivo de sucesso, torna-se o seu referencial máximo de perfeição: rico, inteligente, adorado pelas massas ao fazer comédia. Arthur é conduzido pela imitação: vê religiosamente o programa com a mãe pela noite e imita, aqui e ali, expressões e gestos. Associa-se ao seu universo. Entra numa rede de associações contingentes do ser-comediante, ligadas à imitação proporcionada pelo seu arquétipo e dissociando-se doutras: quer ser comediante, sonha com stand up comedy.

Contudo, antes de Murray ser arquétipo de Arthur, já a mãe o havia orientado para associações que resultam do “ser-comediante”: com o tal distúrbio nervoso do riso, perde facilmente o controlo emocional e responde com risos agudos a muitas das dinâmicas relacionais. Ora, como ri descontroladamente quando fica tenso e nervoso, tal causa-lhe inúmeros transtornos relacionais que acabam por levar a mãe a criar narrativas em torno do seu distúrbio para lhe explicar a vida. Uma das grandes ideias é esta: Arthur seria o especial “Happy”, porque sempre que nervoso, tenso ou preocupado, responderia com várias gargalhadas. Esta é a associação 1 que o filme nos proporciona (doravante designada de A1).

Não sabemos como a A1 influenciou a sua infância. Mas podemos imaginar a crueldade infantil e juvenil quando essa espécie de devir-happy gerada pelo distúrbio de Arthur entrasse em ação: o gozo, a estranheza, o desentendimento, o desajuste situacional, o desconforto de Arthur e dos outros, que veem riso ao invés de preocupação ou tensão. Nota-se que a crueldade e a intolerância social são pedras de toque do argumento, que Arthur foi vítima também na infância desse distúrbio, dessa diferença, dessa não-imitação esperada pelo social e que causa as mais diversas reações. A mensagem é por demais evidente: a sociedade não dá espaço ao desajuste situacional nem de resposta emocional, não tolera a diferença, não pactua com o inesperado e com o distúrbio. Deves rir quando deves rir e ficar tenso e sério quando deves ficar tenso e sério. O padrão comportamental está estabelecido e deve ser imitado. Mesmo que sejas doente. Daí Arthur ter escrito no seu caderno de piadas o seguinte: “a sociedade espera que o doente não se comporte como tal”.

Arthur não expressa, quando tenso, o sentimento esperado socialmente por escolha. Portanto, não é dono de uma imitação social esperada e requerida nas situações de tensão. Simplesmente, ele não imita o esperado por distúrbio nervoso. É a A1 sempre a gerar novas associações e dissociações, na maioria das vezes constrangedoras. É a A1 que o leva a construir um arquétipo e a dissociar-se de outros: se rio excessivamente, se calhar devo ser palhaço (Associação 2). Se sou palhaço, devo ser um comediante para vingar na contingência (Associação 3). Essas associações conduzem à associação 4 (A4): encontrar um arquétipo de comediante. O ecrã, poderoso ator-na-rede das associações, leva Arthur ao seu arquétipo-mor: Murray Franklin, comediante de sucesso, que passa a ser o A4 no seu processo de identificação social – processo que lhe permite a construção de sonhos e aspirações dentro da esteira do ser-comediante.

Os acontecimentos familiares e situacionais vão-se desenrolando na trama: chegado a A2 (ser palhaço), confronta-se com uma situação em que é gozado e violentado por jovens. Apanha porrada. Um dos seus colegas de trabalho, Harry, sabendo da situação, dá-lhe uma arma para autodefesa. Procedimento comum num país de “armas livres” (doravante A5).

No elevador do prédio velho e pobre onde mora, encontra a referência feminina (para além da sua mãe) com o seu filho. Uma bela jovem que lhe faz um gesto curioso: aponta o dedo à cabeça como se fosse uma arma, dizendo que o prédio onde ambos vivem é de loucos. Em Arthur, eis que nasce uma nova associação em modo de imagem: o arquétipo feminino que representa parece indiciar que o tiro na cabeça poderia ser a solução para a vida num prédio de loucos, num mundo complexo e desigual (A6).

Arthur fica em casa a experimentar a sensação de manejar a arma oferecida por Harry. Brinca com o suicídio. Imagina-se a fazer comédia com a arma. Com o suicídio. E passa a andar com a arma, ator-poderoso-na-rede na medida em que “garante” poder e segurança no dia-a-dia (doravante A7). Dissocia-se, portanto, da ideia de andar sem arma nas perigosas ruas de Gotham (D1).

Numa das suas atividades profissionais de palhaço (A2), essa arma (A7) que transporta no bolso cai. Os jovens de um hospital que eram o público-alvo das suas piadas, ficam surpresos. O patrão de Arthur acaba por saber desse acontecimento. Arthur é despedido (A8). Fica destroçado.

No Metro de Gotham, local inseguro (D1) e pouco digno, três jovens adultos visivelmente bêbados, provocam uma mulher que viaja sozinha. Agridem-na verbalmente. Nessa carruagem, Arthur, mascarado de palhaço, a caminho de casa depois de ser despedido (A8), fica novamente tenso. Dissocia-se daqueles comportamentos, reprovando-os com nervosismo e tensão (D2). E tenso responde com A1 (riso súbito desconectado dos sentimentos que vive). Isso chama a atenção dos três bêbados. Que começam a aproximar-se de Arthur. Cantam e batem-lhe. No chão, a arma-que-confere-segurança (A7) no país-de-armas-livres-e-incentivadas-nas-lojas (A5), é sacada para defender a integridade física de Arthur. Este acaba por matar os três num misto de autodefesa e raiva-vingança. Esta sensação de poder de autodefesa e vingança proporcionada por A5 e A7 faz nascer uma nova associação e uma nova dissociação: o ser-social-seguro-que-se-prolonga-na-relação-braço-arma (A9) e o-ser-social-inseguro-sem-arma (D3). Depois de A8, as associações A5 e A7 geram-lhe segurança num mundo simbolizado por A6 (a bela jovem que mostra o mundo pelo símbolo da arma apontada à cabeça) que afeta profundamente Arthur, alguém que é vítima de A1 e vive em regime de A2.

Ainda não é aqui que Arthur dá lugar a Joker. Foi preciso que Thomas Wayne, candidato à prefeitura de Gotham, dissesse no ecrã que este tipo de crimes – o palhaço que mata no Metro três jovens adultos bem-sucedidos e ligados à equipa profissional de Wayne – é o reflexo perfeito de uma massa de pessoas que “nada fazem na vida” (são, portanto, palhaços do mundo) e que destroem a vida aos que “fazem” coisas boas. Esta frase ecoou em Arthur porque o colocou como um “palhaço” sem qualquer utilidade, mas ecoou ainda mais na contingência de Gotham que encontrava no binómio pobre-rico a sua maior controvérsia. O desemprego, as desigualdades, a corrupção, o compadrio, os cortes nos apoios sociais (onde figura o fim da psicóloga para Arthur), são a pedra de toque da região (A10). Arthur, o palhaço considerado criminoso por Wayne, é considerado por todos aqueles que enfrentam as dificuldades sociais geradas por A10, como o herói do momento, o herói da contingência (A11).

Uns dias a seguir a ser despedido, Arthur decide cumprir o seu sonho: ser um comediante de stand up comedy (A3). Inicialmente, a atuação corre mal: nervoso, entra em palco a rir quase em asfixia. Mas lá se consegue controlar. E diz uma piada: “em criança, não gostava da escola, mas a minha mãe dizia que tinha que estudar para ser alguém, só que eu não quero ser alguém; quero ser apenas um comediante”.

Esta expressão passa. Contudo, uns dias a seguir, o seu herói do ecrã, o comediante Murray Franklin, goza com essa performance, com essa frase “eu não quero ser alguém; quero ser apenas um comediante”. Esta performance aparece em vídeo no seu programa como motivo de gozo. Isso desilude Arthur: o seu herói goza-o em público (Associação 12). Eis o germe para a dissociação a Murray (D4).

Depois disso, em casa, descobre uma carta que a sua pobre mãe diz que vai enviar a Thomas Wayne, aquele que pode salvar a condição miserável em que ambos vivem. Arthur lê a carta sem que a mãe veja. Repara que nesta está escrito que Arthur é filho de Thomas Wayne. Arthur fica fulo pelo facto da mãe nunca lhe ter contado (D5). Vai a casa de Wayne. Conta a situação ao funcionário que está na sua mansão. Esse responde dizendo que a mãe é louca e que é tudo mentira. Arthur volta a ficar desorientado.

Entretanto, os jornais da cidade tratam o palhaço que assassinou os três jovens ricos e bem-sucedidos como o “vigilante das desigualdades”. Uma espécie de herói dos pobres (A13).

Arthur chega a casa e a mãe está a ser socorrida por médicos e enfermeiros. Está em hiperventilação. Teve um AVC. Já no hospital, dois agentes vão questionar Arthur sobre os crimes do Metro (A9). Arthur descobre que é por causa deles, que foram à sua casa tentar inquiri-lo, que a sua mãe tem o AVC. Queriam apenas interrogar Arthur mas acabaram por falar com a mãe e deixá-la num estado nervoso e de saúde próximo da morte. Arthur sente que A5, A7 e A9 trazem consequências nefastas ao seu mundo. Contudo, nega e dissocia-se desses acontecimentos (D6). Pensa apenas em resolver os mistérios da sua vida.

No entanto, no dia a seguir, Gotham acorda com manifestantes mascarados. A máscara de palhaço simboliza, naquela contingência, a luta entre pobres e ricos (A10 e A11). Precisamente devido ao facto do palhaço (A2) ter morto a tiro (A5 e A7) os jovens adultos ricos no metro dos pobres para se defender (A9). Nisso, subscrevem a D4.

Arthur segue a sua vida. Vai confrontar Wayne face-a-face. Enfrenta-o numa casa de banho. Pede carinho ao “suposto” pai. Wayne diz que a mãe dele é louca. Que esteve internada e que inventou a história. Que é tudo mentira. Arthur grita e pergunta por que razão o mundo é todo cruel com ele (D7). Wayne bate-lhe (A14). Arthur volta a sentir a crueldade social, a frieza do mundo desde A1 até à atualidade.

Entretanto, no dia a seguir, tem uma boa notícia. É convidado por Murray Franklin para ir ao seu programa televisivo (A15). Aceita. O motivo de Murray advém da A12: o vídeo que teria sido usado para gozar com Arthur torna-se viral e um sucesso. A sensação de Arthur sobre Murray é já a de D4.

Mas a busca de Arthur, enquanto a mãe estava internada no hospital, era agora outra: a de saber se a mãe havia sido internada há 30 anos. Descobre que sim. E que afinal fora adotado. E que afinal tinha sido educado por uma louca, repleta de psicoses e distúrbios mentais. E que afinal teria sido violentado em criança, e vítima de inúmeros tipos de maus-tratos infantis. E que afinal, mais decisivo ainda, que o seu distúrbio nervoso teria sido o resultado de uma pancada na cabeça: Joker passa definitivamente a ser, na visão de Todd Phillips, a metáfora do ser social como projeto construído pelo contexto e pelas contingências, a metáfora do triunfo da sociedade de Rousseau: o ser é bom e frágil, mas a sociedade vai agindo em direção ao endurecimento e à corrupção (D6 de Arthur). Arthur considera toda esta sequência de associações, de A1 a A15, uma piada que ninguém entende. O número de associações e dissociações que se vão gerando a partir de modelos sociais dados e prontos a imitar que se sucedem na contingência é uma “piada que ninguém percebe”. Afinal, conclui Arthur, a vida dele não era nenhuma tragédia como sempre julgou. A vida dele era uma “comédia” que só ele entendia e que a sociedade, no seu todo, seria incapaz de perceber. O ser social, repleto de associações contingentes, é uma sequência não tanto de uma relação de causa-efeito mas de relações de tipo causa-causa-causa (como Latour (2012) evidencia na sua “teoria do ator-rede”). Claro, no final, toda esta “piada” tem efeitos perversos. É todo este conjunto de associações e dissociações que faz nascer Joker.

Então, embrulhado num conjunto de desorientações, percebendo que a trama da sua vida está enrolada em mentiras, Joker nasce. Precisamente no momento em que, repleto de raiva, mata a mãe que afinal seria mãe-adotiva, perturbada e psicótica (D5 e D8).

Vai para casa e começa a pintar-se de Happy (A2). Recebe, entretanto, a visita de Harry e o seu amigo “anão” (sem indicações do nome desta personagem). Arthur mata violentamente Harry por vingança das associações por esse geradas, que culminam em A5, A6, A7, A8 e A9. Deixa o anão fugir por entender que foi o único colega de trabalho simpático e terno. Além disso, pelo facto de ser anão, sente compaixão e semelhança: a vida foi cruel com os dois por lhes ter dado a diferença num mundo de iguais. Até para abrir o trinco (piada visual) da porta a vida fora cruel para o anão: um pormenor subtil que não deixa Arthur nem ninguém incólume: ao viver de imitações, a sociedade cria padrões, normalidades. Mas os diferentes, como o anão, nem sequer conseguem abrir uma porta de tamanho médio. Esta alusão remete-nos para a pergunta: “contribuímos todos realmente para a inclusão social?”.

Arthur veste-se então, e pela primeira vez de modo efetivo, da persona de “Joker”. Assume o nome dado por Murray quando em A12 goza com ele. Faz da troça de que foi alvo o seu novo nome artístico.

Entretanto, na rua, foge dos agentes policiais (D9 – foge da lei). E entra no metro onde se refugia entre os manifestantes que, também vestidos de palhaço em homenagem a A9, vão para as ruas protestar. Estes acabam, sem querer, por ajudar Arthur a fugir à polícia, revoltando-se contra esta no “calor” do sempre frustrante e desigual palco que o “Metro” sempre espelha (D1 e A10).

Já no programa de Murray, entra em cena pela primeira vez toda a persona de Joker: expressões físicas resultantes de imitações ecrãnicas; posse de gozo; beijo imprudente e provocador a uma mulher convidada permanentemente pelo programa; finalmente, desprezo por Murray que em A12 passou, para ele, de herói a besta. Responde a perguntas do apresentador. Diz mesmo que não quer saber de movimentos políticos e que nada tem a ver com isso. O seu problema é mesmo a sociedade que o corrompeu através de várias sequências de associações. Conta uma piada. Não correspondido pelo riso da plateia, conta a piada maior: “fui eu que matei os três jovens adultos no Metro” (A9). Choca todos. Murray começa a ficar agressivo nas perguntas. Gera-se tensão. Joker ri. E critica a crueldade social. A injustiça alheia. A incapacidade de tolerar a diferença. A tensão aumenta. Murray interrompe o discurso. Joker, farto de ser achincalhado pela sociedade, vinga-se dela usando Murray (D4). Dá-lhe um tiro na cabeça (A5). Os gritos começam. Meio sem saber o que está a fazer, mas movido por uma intensidade povoada de raiva e vingança, dispara um segundo tiro no já morto Murray (D4, D5, D7, A6, A12, A14 e A15). Com movimentos corporais de desorientação mas alegria, Joker dança. Aquilo parece ser o ato primeiro da sua atuação. A piada que a sociedade nunca entendeu (A16).

Joker é detido. No carro de polícia que passa pelos manifestantes, é abalroado por um manifestante. Conseguem tirar Joker de dentro do carro destruído. Colocam Joker no capô. Entretanto, Joker acorda da colisão. Levanta-se elevado, em cima do capô. É reconhecido como o herói dos manifestantes. Todos gritam o seu nome. É o herói da contingência (A9 e A16). E a sangrar pela boca devido à colisão, usa o sangue para alargar a expressão do sorriso na face. Esta parte é simbólica: Todd Phillips quis enviar a mensagem: o sangue da sua vida gerou Joker. O sangue proporcionado pelo seu contexto gerou o sorriso de Joker. Esta contingência pedia um Joker.  

O filme termina com uma das lições essenciais que Todd Phillips colocou no argumento: Arthur no manicómio, a falar com a sua psicóloga que parece não entender nada da sua vida. Como se de um atestado de incompetência fosse passado à Psicologia, como se a Sociologia fosse bem mais poderosa, influente e misteriosa. A prova deste argumento invocado pelo realizador está na frase final de Arthur: “contava-lhe uma piada, mas você não iria entender”. Ou seja, a “comédia” social é um jogo cruel e perverso, gerador de uma hipocrisia que grande parte dos iguais, dos imitadores sociais, não entendem.

O personagem Joker encena assim aquilo a que fui descrevendo como sendo uma sociologia das associações contingentes, em que “contingências imitativas”, “oposições contingenciais” e “modos contingentes de adaptação” formam um trio implacável na estruturação social das coletividades. As associações geradas pelas imitações do que nos é dado pelo social, pelas oposições aos modelos dados ou herdados e pelas nuances adaptativas que se podem gerar, permitem a criação de tensões permanentes, onde muitas vezes se perdem os rastos das suas causas.

Joker não é apenas um criminoso, louco e depressivo. É um produto da crueldade e da frieza social sobre a diferença. Um resultado das irresponsabilidades educacionais. Um efeito gerado pelos descuidos nos processos de educação e socialização e pelas criações dos meios de comunicação (ecrãs e jornais). Uma embalagem composta pelas desigualdades no acesso de oportunidades, pela criação de grupos desfavorecidos, pela criação de segmentos dicotómicos (ricos-pobres; subúrbios-centros; acessos-inacessos). Toda a dicotomia social gera associação de uns a umas coisas e dissociação de outros às mesmas coisas. Joker e Gotham exploram essas dicotomias como ninguém, provando Rousseau. Batman é a resposta ao combate direto com o crime, mas não o combate aos motivos do crime e desvio.

Com este artigo quis demonstrar que não chega dizer que a sociedade corrompe o ator. Isso prova-se recorrentemente, com exemplos diários em todas as comunidades, mas não explica as sequências das associações. A sociologia das associações deve servir para mais do que provar. Deve servir para demonstrar os altos e baixos das dinâmicas sociais, encontrar ou apontar os caminhos que impeçam associações ou dissociações destrutivas e que contribuem para o aumento das desigualdades, das crueldades e das controvérsias sociais. Sobre isso, o filme Joker serve como um excelente relato. Hoje, quando se vislumbram manifestações várias nas ruas da cidade, podemos encontrar neste relato algumas respostas contundentes sobre as intensidades que levam as pessoas às manifestações.

 

MAPA DE ASSOCIAÇÕES

A1 – O distúrbio de Arthur leva-o a ser o “Happy”, porque sempre que nervoso, tenso ou preocupado, responderia com várias gargalhadas.

A2 – Chegar à profissão de palhaço.

A3 – Aspirar a ser comediante de Stand up comedy, que é o formato de comediante mais apreciado e respeitado na contingência.

A4 – Identificação com o arquétipo de comediante (Murray Franklin).

A5 – A facilidade de acesso às armas. Nos EUA, este acesso facilitado gera inúmeros prolongamentos e associações às ideias de “segurança armada”.

A6 – O arquétipo feminino de Arthur indicia que o tiro na cabeça poderia ser a solução para a vida num prédio de loucos, num mundo complexo e desigual.

A7 – Passa a andar com a arma, ator-poderoso-na-rede na medida em que “garante” segurança e poder no dia-a-dia.

A8 – Arthur é despedido.

A9 – após utilizar a arma como defesa, para a associar-se à ideia de que com esta o-ser-social-seguro-se-prolonga-na-relação-braço-arma.

A10 – O desemprego, as desigualdades, a corrupção, o compadrio, os cortes nos apoios sociais (onde figura o fim da psicóloga para Arthur), são a pedra de toque da região.

A11 – Arthur, o palhaço considerado criminoso por Wayne, é considerado por todos aqueles que enfrentam as dificuldades sociais geradas por A10, como o herói do momento, o herói da contingência.

A12 – O vídeo que teria sido usado para gozar com Arthur torna-se viral e um sucesso.

A13 – Os jornais da cidade tratam o palhaço que assassinou os três jovens ricos e bem-sucedidos como o “vigilante das desigualdades”. Uma espécie de herói dos pobres.

A14 – Wayne bate a Arthur. Este volta a sentir a crueldade social, a frieza do mundo.

A15 – Arthur é convidado por Murray Franklin para ir ao seu programa televisivo.

A16 – momento em Joker dança no ecrã, munido de desorientação e alegria. O seu primeiro ato: a piada que a sociedade nunca entendeu.

 

MAPA DE DISSOCIAÇÕES

D1 – Ideia de andar sem arma nas perigosas ruas de Gotham.

D2 – Dissocia-se da injustiça, do gozo que os três bêbados aplicam à mulher solitária no Metro, reprovando-os com nervosismo e tensão.

D3 – Ao usar arma, dissocia-se do ser-social-inseguro-sem-arma.

D4 – O herói de Arthur, Murray Franklin, goza-o em público, no ecrã das multidões, levando-o à dissociação para com esse.

D5 – Arthur fica fulo pelo facto da mãe nunca lhe ter contado que “supostamente era” filho de Thomas Wayne.

D6 – Arthur nega e dissocia-se dos acontecimentos relativos à morte dos três bêbados no Metro.

D7 – Wayne diz que a mãe dele é louca. Que esteve internada e que inventou a história. Que é tudo mentira. Arthur grita e pergunta por que razão o mundo é todo cruel com ele, dissociando-se desse mundo “cruel”.

D8 – Arthur afasta-se definitivamente do seu passado precisamente no momento em que, repleto de raiva, mata a mãe que afinal seria mãe-adotiva, perturbada e psicótica.

D9 – Arthur passa a fugir dos agentes policiais, desprezando a lei.

 

Referências 

 

Ginzburg, C. (1989). Mitos, emblemas, sinais: Morfologia e história. São Paulo: Companhia das Letras.

Latour, B. (2012). Reagregando o Social – uma introdução à teoria do ator-rede. Salvador: EDUFBA – EDUSC.

Sartre, J. P. (1993). O Ser e o Nada. Lisboa: Círculo de Leitores.

Weber, M. (1991). The Nature of Social Action. Runciman, W. G. Weber: Selections in Translation. Cambridge University Press.    

Escreva um comentário

Nome

Website

Comment